quinta-feira, 23 de abril de 2009

Questionadores da humanidade

Questionadores da humanidade

Questionadores da humanidadeQuestionadores da humanidadeQuestionadores da humanidade Foi-se o tempo em que fazer teologia era sinônimo de ser padre ou pastor. Graduação pode ser a porta de entrada para uma carreira sólida na área das ciências humanas
Juliana Godoy // Especial para o Diario
julianagodoy.pe@diariosassociados.com.br

Etelmir Mendes, 36 anos, se formou em ciências contabeis em 2001 pela Universidade Católica de Pernambuco, mas o grande sonho cultivado durante os anos de curso não foi apenas o de ser contador.  Etelmir também queria ensinar. Para isso, entrou no curso de teologia da Católica. Mas escolher e seguir um dos cursos mais antigos da humanidade não é fácil. É preciso ser questionador, curioso e ter vocação para a profissão. 

O coordenador do curso da Universidade Católica, Cláudio Vianney, explica que a profissão é toda voltada para a reflexão sobre Deus, seja qual for a religião. "É um estudo sobre a relação de Deus com a humanidade", explica. "O teólogo procura responder às questões-chave da humanidade, que são: o que somos, de onde viemos e para onde vamos", acrescenta João Luíz Correia Júnior, professor da Universidade. Por isso, quem deseja entrar para o curso precisa ser curioso e questionador. Não dá para aceitar tudo o que édito, é preciso investigar, pesquisar e ir atrás de informações que comprovem aquele pensamento. "A teologia se concentra em torno das últimas interpretações, metas e questões de Deus", afirma Júnior.  Ao longo dos quatro anos de curso, os alunos vão conhecer os tipos de teologia (a sistemática, a contextualizada, a de sacramentos) de uma maneira geral. "Dentro da faculdade a gente vê um pouco de tudo, mas, claro, sempre puxam um pouco para a religião que pregam. Na Católica o próprio nome já diz. É uma instituição católica, mas nem por isso deixa de dar os outros pontos de vista", conta Etelmir Mendes, que está no último período da graduação. Além da universidade em que está, o curso também é oferecido aqui no estado pelo Seminário Batista do Norte, pelo Seminário Anglicano de Estudos Teológicos e por outros seminários católicos e judeus. "Hoje existe teologia em todas as religiões. Tem até na islâmica", afirma João Luíz.

Para quem quer entrar nessa área, Cláudio Vianney avisa: é preciso disposição. "A pessoa tem que estar disposta a dialogar. A teologia não é uma ciência exata, é hermenêutica, quem faz está implicado dentro dela, já que faz parte da humanidade", avisa. Esse é o caso de Etelmir. Apesar de estar envolvido em uma igreja, o contador se denomina um cientista. "O que gosto é de estudar. Estudo Deus de uma maneira geral, universal, e não apenas seguindo um pensamento único", afirma. Mas não pense que o curso só estuda a espiritualidade. A teologia é muito mais complexa que isso. Envolve muitas outras ciências por trás. "Ela sempre esteve, e vai continuar, relacionada com a psicologia e a filosofia", avisa Vianney. "E agora ainda tem a ciência da religião (estuda as religiões de uma maneira mais abrangente), que chega para colocar a teologia em xeque. Mas o curso não vai deixar de existir, porque um complementa o outro, e as instituições religiosas vão continuar precisando de teólogos", pontua João Luíz. 
Para quem quer ensinar 

Estudar teologia não é o mesmo que ser padre ou pastor. Para quem tem vocação para essas carreiras até pode ser, mas o curso também dá outras opções de trabalho. A principal é, sem dúvidas, a de professor.  Seja de colégio ou universidade, grande parte dos formandos segue mesmo é para a carreira acadêmica. Mas as alternativas não param por aí. Existem teólogos em todos os campos profissionais, principalmente nas ciências humanas. 

"Para quem deseja ser ordenado padre ou pastor o curso de teologia é realmente exigido, é o principal requisito. Mas fazer o curso não quer dizer que você tenha obrigação com o ministério. Para seguir na ordem tem uma preparação mais específica", explica o Padre Reginaldo Veloso. Depois da graduação o destino a seguir vai depender de cada um. Quem quer ser pastor evangélico segue os estudos nessa área, quem quer ser padre segue na linha católica e assim por diante. "A diferença entre todas as igrejas é a perspectiva da leitura da bíblia. Cada uma interpreta de uma maneira diferente efaz seu estudo nessa linha. Umas são mais abertas ao diálogo, outras mais fechadas", afirma o ministro pastoral auxiliar do Seminário Anglicano de Estudos Teológicos, Isaías Torquato. 

Mas quem não se identifica de maneira alguma com esses setores, opções de trabalhos não faltam. Cláudio Vianney, da Católica, explica que o campo de trabalho pode não ser tão imenso, mas que sempre restam alternativas. "As pessoas podem atuar como professores de religião em algumas escolas, podem coordenar pastorais ou entrar para o magistério, que é o ensino em universidades", avisa. E ainda tem a parte social da profissão. Muitos teólogos são bem aceitos em projetos sociais e em ONGs. "Aqui você não tem só uma perspectiva religiosa, mas humanista. Dá para trabalhar em fundações, em projetos, ajudando comunidades, levando os problemas delas para os setores públicos e privados", explica Torquato, que atua junto à comunidade de Santo Aleixo em Jaboatão dos Guararapes.

Segunda opção - O curso de teologia é considerado por muitosum complemento à profissão. Muitos alunos que resolvem entrar na área já são formados em algum outro curso, muitas vezes da parte de humanas. "Geralmente, quem procura a graduação já tem um outro curso no currículo e quer acrescentar algo mais na sua profissão", afirma Vianney. Entre esses profissionais podem ser encontrados muitos filósofos, historiadores e psicólogos. "E também sempre têm aqueles alunos que apesar de estarem em outra profissão, gostam da área teológica, querem entender os questionamentos da humanidade", conclui o coordenador. 
Ecoteologia entre as novidades 
O estudo teológico não se resume apenas a uma ou duas linhas de pensamentos. São muitas delas e a cada dia surge algo novo. Entre as principais estão a sistemática, a moral e a de sacramentos. Mas durante a graduação em teologia o aluno aprende um pouco mais sobre cada tipo. O professor João Luíz Correia Júnior diz que saber sobre a teologia moral é fundamental para quem quer entrar na área. "É a parte da teologia que estuda o comportamento humano sobre a visão da ética a partir da fé", explica. Ou seja, é o estudo que responde os questionamentos éticos como aborto, eutanásia e outros temas polêmicos. Outro tipo de estudo, também importante, é a teologia sistemática. Ela, inclusive, pode ser considerada o eixo central da profissão. "É nela que se estudam os mistérios. O que se entende por Deus, quem somos nós e questões desse tipo. Ela é a base da teologia", diz João.

Um outro segmento é a teologia contextualizada. Em cada país, em cada estado, cidade, bairro, tem um tipo de fé. É um estudo mais regionalizado. "Ainda tem a teologia da salvação, dos povos indígenas, feminista, dos sacramentos, que estuda os rituais de cada religião", enumera Júnior. Entre as novidades está a ecoteologia, que estuda a relação da humanidade com o meio ambiente do ponto de vista bíblíco e religioso.

Confecional e não confecional - São tantos os estudos de teologia que muitas vezes as instituições precisam escolher apenas uma linha a ser seguida. Mas tem alguns lugares que estão dispostos a dialogar com todos os tipos de estudo. Elas são chamadas de instituições confessionais. "Geralmente, elas têm uma teologia mais aberta, ela está disposta a estudar outras religiões também", explica Isaías Torquato. Já as não-confecionais são consideradas mais fechadas. "Aí são lugares mais fechados aos seus princípios, aos seus rituais", diz Torquato.   Gosto pelos estudos 



Apesar de ter nascido na Irlanda e feito graduação em Londres, foi no Brasil que a teóloga Joyce Clayton, 65 anos, se encontrou.  A decisão de vir para cá com o marido, segundo ela, foi por vocação, assim como a escolha da profissão. Para Joyce, escolher teologia como carreira não pode ser um acaso, tem que haver identificação por parte das pessoas interessadas. Isso porque apesar de não faltar empregos, o mercado nãao é tão amplo para quem não quer se engajar.

A primeira graduação de Joyce, que hoje é coordenadora interina do curso de teologia do Seminário Batista do Norte, foi em geografia e geologia. "Fiz o curso quando ainda morava na Irlanda", lembra. E foi ainda dentro dele que ela percebeu sua vocação para teologia. "Desde da metade da faculdade percebi que queria fazer algo voltado para a religião, então busquei o curso de teologia na Inglaterra", conta. Assim que terminou a segunda graduação, Joyce decidiu que viria para o Brasil fazer um dos cursos livres do seminário Batista. "Vim fazer sobre a história da igreja e não sai mais. Assim como a escolha da profissão, o lugar para trabalhar também foi escolhido por vocação. Eu vim porque queria fazer missões aqui", explica. Sobre o mercado de trabalho no país, a teóloga deu a entrevista que você lê a seguir no Guia de Profissões:

Em quê o teólogo pode trabalhar hoje?

Existe o preparo para ser pastor ou padre, que, inclusive, muita gente vem de outros estados para fazer isso aqui. Tem também a função de missionários. Se a pessoa não quer ser padre ou pastor, ela pode ficar apenas encarregada de ajudar as igrejas de maneira geral. Outro trabalho é o de professor, que pode ser em escolas particulares, com ensino religioso ou de graduação, para o ensino da própria teologia ou para atuar com pesquisas. E, por fim, tem os trabalhos com ONGs e projetos sociais. Muitos teólogos ajudam comunidades com o seu conhecimento.

Existe um perfil?

Primeiro ele tem que ter vocação, porque não é uma profissão que dá muito dinheiro, então tem que gostar muito. Segundo tem que cultivar o amor pelas pessoas e estimular isso. Tem que ter também dedicação. É preciso tempo para os estudos. Fazer teologia, hoje, é um investimento e que você precisa se dedicar a ele.

E o rendimento fica na faixa de quanto?

Não tem como dizer. Quem trabalha como professor vai ganhar o preço do mercado mesmo (R$ 1 mil a R$ 2 mil). Se for como pastor ou padre vai depender de onde você trabalha, de como é a contribuição na igreja. Não dá para ter uma média. 

O que é essencial para ser teólogo?

Ter uma noção básica de fé, das bases doutrinárias das igrejas. Uma experiência prévia em alguma instituição religiosa também ajuda, porque lá você vê o quanto é engajado, o quanto se identifica com a profissão.

Tem um mercado de trabalho bom?

Normalmente o aluno se torna conhecido já durante o curso e a medida que vai terminado, eles são chamados para trabalhar. Ou então ele já está ligado a alguma instituição. São poucos os que ficam sem emprego.

O que você aconselha para quem quer começar nessa área?

Conversar bastante com pessoas ligadas à área para ver se tem a vocação. Também digo que não vá fazer o curso só para passar o tempo. É preciso gostar e se dedicar à teologia.   "Um bom teólogo tem que conhecer outros campos" 
Desde pequeno Inácio Strieder, 69 anos, acreditava que seria padre.  Chegou até a se ordenar na Alemanha, mas voltou atrás da decisão quando retornou para o Brasil. Aqui, Strieder casou, teve uma filha, casou novamente após ficar viúvo e decidiu ser professor. Ao invés de trabalhar para a igreja, ele iria ensinar sobre ela, falaria sobre a reflexão teológica de uma maneira mais ampla, sem as barreiras de uma instituição religiosa.

Nascido no Rio Grande do Sul, Inácio sempre fez parte da ordem dos jezuítas. Estudou em um colégio voltado para a religião e depois de seu primeiro curso superior, o de bacharelado em filosofia em 1964, resolveu fazer teologia. "Eu sempre tive na minha cabeça que seria padre. Inclusive estava estudando para isso no Rio Grande do Sul", conta. Mas seus planos só foram em frente por um tempo. Após a graduação, feita na Universidade do Vale do Rio dos Sinos em 1969 e da licenciatura em filosofia, feita em Santa Catarina, o teólogo recebeu uma bolsa de estudos para fazer doutorado na Alemanha. Inácio não pensou duas vezes. Rumou para a Europa para estudar na Wilhelms Universitat Munster, onde ficou por cinco anos. "Quando fui para a Alemanha cheguei até a me ordenar padre lá. Mas na volta para o Brasil desisti da decisão", diz.

Ao chegar no país de origem Inácio acreditava que era preciso assumir sua vida para pensar da maneira que quisesse, livre dos muros da instituição religiosa. Por isso, largou a batina. "Antes eu tinha que medir o limite do meu pensamento, agora eu assumi meus pensamentos e corro os riscos por mim mesmo e não atrás de uma igreja", afirma. Para ele, hoje, é fundamental que o teólogo tenha essa percepção. "A reflexão teológica é muito ampla. Para ser um bom teólogo é preciso se aprofundar em todos os campos", avisa. Depois disso Inácio decidiu ser professor. Por dois anos lecionou no Rio Grande do Sul, na Vale do Rio dos Sinos, seguindo para a PUC de Porto Alegre e chegou a Pernambuco. "Ensinei por 12 anos na Católica e vim para a Universidade Federal de Pernambuco há 21anos", diz. 

Para ele, filosofia, psicologia, antropologia, história e sociologia fazem bem à profissão. "É necessário ter algum conhecimento sobre essas áreas, porque se não for assim você se torna um teólogo fundamentalista, fanático", avisa. Para ele a teologia é a responsável por articular toda a base da humanidade. Tudo o que o humano expressa, entre arte, música, o teólogo precisa conhece.

Breve Perfil

- Bacharel em filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 1964
- Licenciado em filosofia pela Universidade de Santa Catarina, 1968
- Bacharel em teologia também pela Vale do Rio dos Sinos, 1969
- Doutor em teologia pela Wilhelms Universitat Munster, na Alemanha em 1975   

P. S: Os erros ortográficos são de inteira responsabilidade do jornal.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Darwin em discussão no Vaticano

Darwin em discussão no Vaticano

Cientistas e teólogos reúnem-se para falar de «Desígnio inteligente»

:: 2009-03-02

Vaticano acolhe vários painéis de discussão, durante cinco dias
Vaticano acolhe vários painéis de discussão, durante cinco dias
Cientistas e teólogos reúnem-se nos próximos dias no Vaticano para discutir a teoria do "desígnio inteligente", que pretende encontrar sinais de Deus na evolução das espécies, como forma de assinalar o bicentenário do nascimento de Darwin. 

O colóquio, que decorre de terça-feira a sábado na Universidade Pontifícia Gregoriana, destina-se a proporcionar uma 
"abordagem crítica" à herança do autor da «Origem das Espécies», livro fundador da teoria da evolução de que se comemora também este ano o 150º aniversário da publicação. 


Durante os cinco dias, os trabalhos serão divididos em vários painéis para abarcar várias áreas, desde a paleontologia, a biologia molecular, os mecanismos da evolução, a antropologia, a filosofia e a teologia. 

Sobre o encontro, intitulado 
«Evolução biológica: factos e teorias», o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, arcebispo Gianfranco Ravasi, considerou "cada vez mais importante a exigência de um diálogo entre a ciência e a fé, porque nenhuma das duas pode esgotar a complexidade do mistério do homem". 

O prelado absteve-se no entanto de comentar a teoria do 
"desígnio inteligente", em voga em certos meios cristãos, sobretudo nos Estados Unidos, por não rejeitar – ao contrário do criacionismo – as descobertas científicas sobre a evolução natural. 

Mas para um dos participantes no colóquio, o teólogo italiano Giuseppe Tanzella-Nitti, a teoria 
"confunde os planos científico e religioso ao procurar deduzir da observação empírica a existência de uma potência criadora que guiaria a evolução". 

Evolução à maneira de Deus 

Para a Igreja católica, 
"a evolução é no fundo a maneira como Deus criou",mas não é possível extrapolar essa convicção da observação puramente empírica, afirmou. 

A questão será também discutida em Braga num congresso internacional que a Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Portugal organiza de 10 a 12 de Setembro, sob o tema «
O Impacto de Darwin na Ciência, Sociedade e Cultura». 

Para abordar a controversa teoria nesse congresso foi convidado George Coyne, do Observatório do Vaticano e ex-director do Observatório Astronómico de Castelgandolfo, que falará sobre 
"Evolução e desígnio inteligente: o que é Ciência e o que não é".

Na perspectiva de Alfredo Dinis, director da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica e coordenador do congresso, 
"a Igreja desconfia de tudo o que for tentativa de provar a existência de Deus através de métodos científicos, porque sempre distinguiu muito bem entre metodologia científica e metodologia teológica". 

A questão que se coloca, segundo explicou, é que os seguidores do 
"desígnio inteligente", sobretudo nos Estados Unidos, acham que esta é uma teoria científica com o mesmo valor epistemológico do que a teoria da evolução das espécies, e como tal deveria ser igualmente ensinada nas escolas. 

A teoria ganhou força depois de ter sido defendida pelo cardeal Christoph Schoenborn, Arcebispo de Viena, num artigo que publicou em 2005 no New York Times, com o título 
"Encontrar Deus na Natureza". 

"Deus tapa-buracos” 

"Eles querem encontrar maneira de provar que se uma pessoa for evolucionista não tem necessariamente de ser ateia, já que aceitam a evolução, mas não que esta negue a existência de Deus", disse Alfredo Dinis.

"Mas vão por um caminho que é tentar provar que os próprios cientistas, na sua metodologia, não têm outro remédio senão chegar a Deus, por não terem explicação para a complexidade do Universo". 

No seu entendimento, esta é a argumentação do 
"Deus tapa-buracos", que ao longo da história tem explicado com Deus o que a ciência não tem conseguido explicar. 

"
Deus não pode ser um tapa-buracos para a nossa ignorância", acrescentou. "Coloca-se noutra dimensão que não é a da explicação científica". 

Opinião idêntica tem Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra e director da Bibioteca geral da mesma Universidade, para quem
"religião e ciência não jogam uma contra a outra porque simplesmente jogam em campeonatos diferentes". 

"Ciência e religião são distintas, são dimensões humanas que podem coexistir pacificamente", afirmou à o cientista. "Quando disputam uma com a outra, pode ser mau para uma e para outra".