segunda-feira, 20 de abril de 2009

Darwin em discussão no Vaticano

Darwin em discussão no Vaticano

Cientistas e teólogos reúnem-se para falar de «Desígnio inteligente»

:: 2009-03-02

Vaticano acolhe vários painéis de discussão, durante cinco dias
Vaticano acolhe vários painéis de discussão, durante cinco dias
Cientistas e teólogos reúnem-se nos próximos dias no Vaticano para discutir a teoria do "desígnio inteligente", que pretende encontrar sinais de Deus na evolução das espécies, como forma de assinalar o bicentenário do nascimento de Darwin. 

O colóquio, que decorre de terça-feira a sábado na Universidade Pontifícia Gregoriana, destina-se a proporcionar uma 
"abordagem crítica" à herança do autor da «Origem das Espécies», livro fundador da teoria da evolução de que se comemora também este ano o 150º aniversário da publicação. 


Durante os cinco dias, os trabalhos serão divididos em vários painéis para abarcar várias áreas, desde a paleontologia, a biologia molecular, os mecanismos da evolução, a antropologia, a filosofia e a teologia. 

Sobre o encontro, intitulado 
«Evolução biológica: factos e teorias», o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, arcebispo Gianfranco Ravasi, considerou "cada vez mais importante a exigência de um diálogo entre a ciência e a fé, porque nenhuma das duas pode esgotar a complexidade do mistério do homem". 

O prelado absteve-se no entanto de comentar a teoria do 
"desígnio inteligente", em voga em certos meios cristãos, sobretudo nos Estados Unidos, por não rejeitar – ao contrário do criacionismo – as descobertas científicas sobre a evolução natural. 

Mas para um dos participantes no colóquio, o teólogo italiano Giuseppe Tanzella-Nitti, a teoria 
"confunde os planos científico e religioso ao procurar deduzir da observação empírica a existência de uma potência criadora que guiaria a evolução". 

Evolução à maneira de Deus 

Para a Igreja católica, 
"a evolução é no fundo a maneira como Deus criou",mas não é possível extrapolar essa convicção da observação puramente empírica, afirmou. 

A questão será também discutida em Braga num congresso internacional que a Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Portugal organiza de 10 a 12 de Setembro, sob o tema «
O Impacto de Darwin na Ciência, Sociedade e Cultura». 

Para abordar a controversa teoria nesse congresso foi convidado George Coyne, do Observatório do Vaticano e ex-director do Observatório Astronómico de Castelgandolfo, que falará sobre 
"Evolução e desígnio inteligente: o que é Ciência e o que não é".

Na perspectiva de Alfredo Dinis, director da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica e coordenador do congresso, 
"a Igreja desconfia de tudo o que for tentativa de provar a existência de Deus através de métodos científicos, porque sempre distinguiu muito bem entre metodologia científica e metodologia teológica". 

A questão que se coloca, segundo explicou, é que os seguidores do 
"desígnio inteligente", sobretudo nos Estados Unidos, acham que esta é uma teoria científica com o mesmo valor epistemológico do que a teoria da evolução das espécies, e como tal deveria ser igualmente ensinada nas escolas. 

A teoria ganhou força depois de ter sido defendida pelo cardeal Christoph Schoenborn, Arcebispo de Viena, num artigo que publicou em 2005 no New York Times, com o título 
"Encontrar Deus na Natureza". 

"Deus tapa-buracos” 

"Eles querem encontrar maneira de provar que se uma pessoa for evolucionista não tem necessariamente de ser ateia, já que aceitam a evolução, mas não que esta negue a existência de Deus", disse Alfredo Dinis.

"Mas vão por um caminho que é tentar provar que os próprios cientistas, na sua metodologia, não têm outro remédio senão chegar a Deus, por não terem explicação para a complexidade do Universo". 

No seu entendimento, esta é a argumentação do 
"Deus tapa-buracos", que ao longo da história tem explicado com Deus o que a ciência não tem conseguido explicar. 

"
Deus não pode ser um tapa-buracos para a nossa ignorância", acrescentou. "Coloca-se noutra dimensão que não é a da explicação científica". 

Opinião idêntica tem Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra e director da Bibioteca geral da mesma Universidade, para quem
"religião e ciência não jogam uma contra a outra porque simplesmente jogam em campeonatos diferentes". 

"Ciência e religião são distintas, são dimensões humanas que podem coexistir pacificamente", afirmou à o cientista. "Quando disputam uma com a outra, pode ser mau para uma e para outra". 

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