segunda-feira, 11 de maio de 2009

As diversas faces do mal




As diversas faces do mal

Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer

O ano que passou e este que começa têm sido pródigos em exibir diante de nossos olhos episódios ou evento que parecem derivar diretamente da fonte pérfida da maldade. Ceifando vidas e espalhando sofrimento, estouraram as "tsunamis"na Ásia. A violência continua fazendo estragos deprimentes no tão combalido Iraque e em muitos lugares do mundo, inclusive nas grandes cidades brasileiras. A humanidade, e sobretudo a Europa, relembra os 60 anos da derrubada do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, onde muitos milhões de judeus eram embarcados em trens para o genocídio programado mais extenso e mais refinadamente cruel do qual a história tem notícia.
Todos estes episódios reavivam no fundo do coração humano a pergunta sobre como compaginar a existência do mal com a existência de Deus. O problema é antigo e vem desde a Grécia pré-socrática, com o filósofo Epicuro, que em síntese colocava a questão da seguinte maneira. "Deus ou não quer tirar do mundo os males e não pode, ou não pode e não quer, ou não quer e não pode, ou não quer e nem pode ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que não pode ser em Deus.
Se pode e não quer, é invejoso, o que igualmente é contrário a Deus. Se não quer nem pode, é invejoso e impotente, portanto, não é Deus. Se quer e pode, o que só convém a Deus, de que provém a existência dos males e por que não os elimina?" Sábio Epicuro, que se colocou uma pergunta que desde que o mundo é mundo agita o coração humano. Se Deus é bom, como pode ser que exista o mal, que o ser humano faça tantas coisas não boas, que a vida humana seja atravessada de tantos sofrimentos. Se Deus criou tudo bem, por que a desordem que instaura o mal e o medo na criação divina, que deveria conduzir somente ao Bem e ao Amor?
No século XIX, o filósofo Leibniz foi refletir de novo sobre esta problemática e até criou uma nova área do pensar filosófico e teológico: a teodicéia. Teodicéia vem de Theos (Deus) e dike (justiças). O nome quer dizer que a reflexão desta área filosófica questiona justamente esta incompatibilidade entre a existência de um Deus todo bom, todo amoroso e misericordioso e a existência do mal. A solução de Leibniz foi dizer que o mal não é uma realidade, não tem consistência em si próprio, é apenas um vácuo, um vazio, uma carência: a carência do bem, do amor, de Deus. Portanto, se é assim, continua ele, a responsabilidade de sua existência não diz respeito a Deus. Deus na verdade criou o ser humano na liberdade e este é responsável por escolher. E se escolhe desviadamente, a responsabilidade pela escolha é sua e não de Deus, que continua mostrando-lhe e chamando-o para o caminho do Bem e da Graça.
Nesse contexto é importante perceber que está sempre em jogo a bondade de Deus, a existência do mal e a liberdade do homem e da mulher. É sob essa tríade que toda a discussão da teodicéia se desenvolve, sendo que vai aparecer um quarto elemento que vai tornar a discussão ainda mais complexa: o Diabo, ou demônio como corporificação do mal. Na verdade pensar sobre esta questão tão séria como instigante nunca foi fácil e levou mesmo alguns homens e mulheres muito inteligentes a escolherem o ateísmo como saída. O que acontece é que as explicações não são muito convincentes porque não suportam o dilaceramento em que a complexidade da questão coloca nosso sentir e nosso pensar. Se de um lado, há a tentativa humana de salvar Deus do problema do mal, de outro está a de negar a existência de Deus em função da presença do mal. Por outro lado, enquanto alguns procuram inocentar o ser humano totalmente , outros acham melhor culpa-lo radicalmente. E no final, ainda se quer responsabilizar o Diabo por todo tipo de mal quando se quer inocentar Deus e o homem ao mesmo tempo.
Na verdade, não adianta culpar o demônio ou às forças do mal pela desordem instaurada no universo. O único que acontece é que corre-se o risco de cair no dualismo: afirmar a existência de um princípio do mal oposto a Deus e independente Dele. A problemática toma uma nova dimensão quando, com o Cristianismo, os dois mundos convergem e se entrecruzam: o mundo grego e o judaico.
Enquanto a Bíblia apresenta uma visão mais integrada do ser humano e do mundo, a filosofia grega vai apresentar uma visão mais dualista, que deprecia a matéria e o corpo como sendo lugares onde mora o mal e o pecado.
Toda criação é boa porque um Deus sumamente bom só poderia fazer tudo bem. Isto é o que nos diz a nossa fé. No entanto, onde fica o mal? Se não pode vir de Deus que é bom, nem da criação, que é boa, o mal então não é uma substância em si mesma, mas a perversão de uma vontade livre que se afasta da suprema substância - Deus - e se inclina às coisas baixas: a vontade humana Dentro do imaginário dualista, o Diabo exercia um papel importante. Pois teoricamente acreditava-se apenas na existência de um único princípio bom, e, paradoxalmente, na prática vivia-se como se existissem duas forças - Deus e o diabo - lutando pelo controle do mundo. O cristianismo tem um papel fundamental para a criação da figura do Diabo no imaginário coletivo ocidental. No contexto do Antigo Testamento o satan é uma figura indeterminada e não se têm conceitos claros a seu respeito e sobre sua função.Fala-se dele como o acusador, o que divide. Será no Novo Testamento que ele tomará corpo e terá papéis bem definidos na vida das pessoas. O Diabo assume, portanto, a figura da origem do mal e a base da demonologia.
Nota-se que a denominação que antes era usada para determinar entidades divinas em geral, passa a ser identificada com as divindades maléficas. A teologia católica, porém, refletindo a fé juntamente com a razão filosófica, vai evoluir na direção de não localizar o mal em uma entidade identificável. Por ser contrário à fé cristã admitir a existência de outro princípio equivalente em grandeza e senhorio a Deus, tanto católicos, como protestantes, não podem admitir um princípio mau eterno nem uma criação má. Sendo assim, não abrem mão de um único princípio bom. Na teologia contemporânea não se fala sobre o Diabo, e o problema do mal segue outras categorias. Anjos, demônios, Diabo são portanto figuras míticas e o pecado é uma questão que diz respeito exclusivamente ao ser humano. A teologia contemporânea descarta a origem do mal como um problema especulativo, e se preocupa com o mal concreto. Portanto, como bem diz Guimarães Rosa em seu "Grande sertão Veredas": "Diabo não existe. Existe é homem humano"

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A ESCOLHA

A ESCOLHA

Luiz Felipe Pondé


Tema duro esse da menina estuprada em Pernambuco. O debate sobre aborto é difícil porque reúne forças sociais antagônicas. Os pró-aborto são tão duros quanto os católicos: é um diálogo de surdos. As crenças que alimentam a posição católica são nulas para os não-crentes.
Para os antiaborto, legalizar o aborto é legalizar uma forma de homicídio. Seria você menos radical se visse seu país tornar prática legítima um tipo de homicídio? Por outro lado, seria você menos radical se visse os religiosos te proibirem de se livrar de um problema (o feto) somente porque eles creem em algo que você não crê?

A violência dos pró-aborto vem da relação entre aborto e liberdade: proibir o aborto é tornar a mulher presa da mecânica reprodutiva. Sem precisar ir fundo na filosofia latente nessa posição, é evidente a negação da humanidade do feto nesse caso. O feto não seria mais do que um punhado de células.

Daí todo o infeliz debate acerca de uma definição científica da vida: os pró-aborto precisam se resguardar numa definição científica do que não seja humano (ou seja, desumanizar o feto) para não serem vistos como exterminadores de vítimas indefesas.

Do ponto de vista do Estado laico, legalizar o aborto pode ser visto apenas como um ato dentro do princípio político de tolerância, no qual o Estado passa a bola para o indivíduo e suas instâncias sociais: as pessoas que decidam, quem julgar crime não faça, quem não julgar crime que faça. Evidente que para os antiaborto, esse passo não é tolerante para com a vítima (o feto), que não tem voz ativa no processo. A própria ideia de crime de fato já desapareceu. De novo, seria como deixar ao assassino a decisão livre de matar ou não.

Outro fato que torna esse debate viciado é o preconceito contra a Igreja Católica, aliás, o único preconceito aceito pelos inteligentes. Daí o desfile de expressões banais como Inquisição, Idade Média ou trevas. Puro senso comum. A igreja não é estúpida. Estúpido é quem pensa que ela o seja. Sua herança de 2.000 anos atesta a vida de uma instituição que soube atravessar séculos frequentando todas as trincheiras do mundo.

Para os pró-aborto, a máxima iluminista O mundo só terá paz quando o último rei for enforcado nas tripas do último papa continua sendo um princípio político. Infelizmente, grande parte dos estudos científicos sobre a Igreja Católica sofre do mesmo preconceito banal.

A identificação medíocre dela com mera instância de opressão vicia a reflexão, principalmente porque muitos desses estudiosos partilham da mesma máxima iluminista. Ao contrário, a igreja exerce hoje um (solitário) papel essencial como instituição que relativiza as obviedades modernas, entre elas o de nos lembrar da desumanização silenciosa do feto que opera no fundo dos argumentos pró-aborto.

Mas o caso da menina em Pernambuco tem dois agravantes: o suposto risco de vida da mãe, uma menina de nove anos, e a violência sexual por parte do padrasto. Ambos tornam o aborto legítimo perante a lei. Aqui se agrava, aos meus olhos, o ruído de grande parte do debate.
Fosse minha filha a menina de nove anos, eu não pestanejaria, faria o aborto. A ideia de ela correr risco por culpa de um canalha me levaria a fúria. Entre perder minha filha e a eliminação de dois bebês estranhos, optaria pela eliminação dos bebês. Não usaria eufemismos. Não pediria para que me considerassem um guerreiro da luz contra as trevas nem pediria palmas. Aceitaria a culpa como parte da escolha. Fosse eu o médico envolvido no procedimento, tampouco pestanejaria. Mas não veria aí a vitória da ciência contra a religião, mas uma dura decisão num campo de batalha: qual das vítimas deve morrer?

Para além da insensibilidade do bispo e das banalidades de quem se julga um agente da luz contra as trevas, acho essencial que alguém continue repetindo, mesmo sendo enxovalhado, que em meio às agonias dos seres humanos sempre existem vítimas silenciosas.
A história está cheia de exemplos de desumanização política e científica a serviço do extermínio.

Logo existirão cientistas que gritarão em favor do uso de fetos abortados em pesquisa. Por que o desperdício? 
De minha parte, repito, escolheria minha filha, sabendo que meu ato implicou a morte de seres inocentes, mas a paixão por minha filha me impediria o luxo de ter princípios.

Transcrito do jornal Folha de São Paulo de (23/3/2009)