quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Espiritualidade Integral

Eu sentado tranquilamente, diante do computador, digitando palavras comuns, em um teclado comum, em uma manhã comum de segunda-feira. Aos poucos, começo a perceber algo incomum no ar, na atmosfera que me cerca, uma garoa fina e suave, um lampejo dourado, uma nevoa melancólica espar­gindo-se e brilhando por toda parte, uma confusão silenciosa de platina psicodélica dando vida a todas as direções em que olho, o mundo ganha vida com almas pulsáteis e eloqüentes de cada gota de chuva, cada qual uma pequena abertura, todas elas pequenos orifícios, em uma infinidade radiante que, aos poucos, invade minha mente e alma. Meu coração começa a se encher com esse brilho, abrindo-se em gratidão e voltando-se, gracioso, para o mundo, uma felicidade radiante, dolorosa e extática que a tudo toca com encantamen­to, o desejo de amor e as lágrimas amargas do abraço terno, cada gota de chuva brilhante uma alma oculta me estendendo a mão e, depois, subitamente, uma cacofonia coletiva de deuses e deusas, todos cantando o mais alto possível, olhando-me, chamando-me e incitando-me cada vez mais alto, mais retumbante, e eu a eles e, depois, espontânea e incontrolavelmente, todos nós come­çamos a gritar, a chorar e a cantar em uníssono. Senhor, que som, que estrondo, enquanto soluçávamos e gritávamos: este simples momento presen­te não e a própria face do Espírito? Uma revelação total que nunca poderia ser melhorada de nenhuma outra maneira? E assim, com a obviedade total de tudo, a chuva simplesmente parou. Digito a próxima palavra comum em um teclado comum nesta manhã comum de segunda-feira. Porém, de alguma forma, o mundo nunca voltará a ser o mesmo.

WILBER, Ken. Espiritualidade Integral: uma nova função para a religião neste início de milânio. São Paulo: Aleph, 2006, p.209

sábado, 19 de setembro de 2009

CARTA DE UM ATEU CRISTÃO!!!

CARTA DE UM ATEU CRISTÃO!!!

Por Carlos Vieira[1]

Devemos repensar continuamente nossas imagens de Deus e em caráter de urgência pensá-lo também para hoje, pois, muitos cristãos estão sendo acometidos por uma peste pós-moderna, diagnosticada por crise existencial, gerada por tal religiosidade e nomeada de desgraça. (Cf. QUEIRUGA 1998, p.5)[2]

Diante das supostas conversões a esse “cristianismo” constata-se a existência de um deus nada gracioso, o fundamentalismo hipócrita conduz o crente ao que podemos chamar de vazio ou abismo existencial.

Confesso que como muitos tentei segui-los em minha “santa” ingenuidade, mas não consegui, o peso dessa religiosidade foi o basta tornando-me mais um no meio de muitos, pois, a peste que se alastrou em determinados templos abriu-me os olhos para perceber o quanto sou avesso a essa teologia (vazia) e até a esse deus (desgraçado = ausência de Graça) que durante muito tempo me faz carregar uma cruz que não deveria ser minha, adoeci como muitos na tentativa de ser o que tais sacerdotes queriam que eu fosse (umsanto hipócrita”).

A experiência do abismo existencial existente na minha alma proporcionou-me uma experiência concreta da desgraça, tornei-me “ATEU CONVICTO”. Pois foi através dessa teologia hipócrita onde esse deus não passa de uma criação (projeção) gerada nas vontades humanas ( Freud explica), que barganha com os seus, que é um ser extremamente materialista e ambicioso, que me condena simplesmente por ser quem eu sou e que não possui a capacidade de mudar uma vírgula da minha vida, fez de mim um cético.

Hoje os templos são outros, pois, ao ligarmos as nossas TV´s durante as madrugas, nos damos conta de um mercado religioso dos movimentos pentecostais, mercado esse que nos deixa estarrecidos diante de propostas ousadas e muitas vezes absurdas, assim como afirmou o professor emérito da USP, José Arthur Giannoti, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, do dia 02-08-2009.

Diz Giannoti (2009),

Estava passeando pela TV quando dei com um culto da Igreja Mundial do poder de Deus. Teria rapidamente mudado de canal se não tivesse acabado de ler o interessante livro de Ronaldo de Almeida, “A Igreja Universal e seus Demônios – Um Estudo Etnográfico” [ed. Terceiro Nome, 152 págs.], que me abriu os olhos para o lado especificamente religioso dos movimentos pentecostais. Até então, via neles sobretudo superstição, ignorando o sentido transcendente dessas práticas religiosas. No culto da TV, o pastor simplesmente anunciou que, dado o aumento das despesas da igreja, no próximo mês, o dízimo subia de 10% para 20%. Em seguida, começou a interpelar os crentes para ver quem iria doar R$ 1.000, R$ 500 e assim foi descendo até chegar a R$ 1.

Com as teologias da prosperidade e todas as mazelas do pós-modernismo teológico, o cristianismo tem se tornado uma desgraça para muitos. Infelizmente o deus que se apresenta em shows Cristãos, é um ser extremamente vingativo, ambicioso, interesseiro, apresenta-se como bondoso no momento em que sua criação corresponde com as expectativas (teologias da prosperidade), tornando-se a imagem e semelhança do próprio homem.

Segundo o filósofo Friedrich Nietzsche “Deus está morto. Deus permanece morto. E nós o matamos. Como poderemos nós, os assassinos entre os assassinos, nos consolarmos? O que foi mais santo e poderoso de tudo que este mundo jamais possuiu sangrou até à morte sob nossas facas. Quem removerá este sangue de nós? Com que água nos purificaremos?” [3] A idéia da morte de Deus certamente tem implicações para todos as áreas da vida. Como acertadamente afirmou o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881): “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Pois com a “morte de Deus” o homem achou ter assumido o posto de criador de todas as coisas, achando ter dominado completamente a ciência, a religião e até mesmo o mundo. Pensou ter possuído o conhecimento sobre todas as coisas, inclusive achando-se no direito de velar e enterrar o seu criador, achou ter dominado a ética e a moral, o bem e o mal. E não é o que podemos perceber atualmente, pois durante o processo de modernização e de secularização o homem pensou dominar a vida e a existência humana.

Ó graça momentânea dos homens mortais, que nós procuramos mais do que a graça de Deus. Shakespeare, Ricardo III

Conheci a graça não através dessa teologia pós-moderna, mas através do amor, da kénosis[4] divina, pregada por um Jesus mais humano. Conheci um Jesus que vai muito além das expectativas humanas, que se compadece com a crise existencial de toda humanidade, nunca lançando a sua criação num abismo de onde não possa tirá-lo.

A graça significa que nãonada que possamos fazer para Deus nos amar mais - nenhuma quantidade de renuncia, nenhuma quantidade de conhecimento recebido em seminários, faculdades de teologia, nenhuma quantidade de cruzadas em benefícios de causas justas, a graça significa que nãonada que possamos fazer para Deus nos amar menos – nenhuma quantidade de racismo ou orgulho, pornografia ou adultério, ou até mesmo homicídio. A graça significa que Deus nos ama tanto quanto é possível um Deus infinito nos amar. Deus ama principalmente o mais desgraçado dos homens[5].

Eugene Peterson traça um contraste entre Agostinho e Pelágio, dois oponentes teológicos do século IV. Pelágio era educado, convincente e todos gostavam dele. Agostinho desperdiçou sua juventude na imoralidade, tinha um estranho relacionamento com sua mãe e fez muitos inimigos. Mas Agostinho conheceu a graça de Deus e acertou, enquanto Pelágio partiu dos esforços humanos e errou. Agostinho buscou apaixonadamente a Deus; Pelágio trabalhou metodicamente para agradar a Deus. Peterson continua dizendo que os cristãos tendem a ser agostinianos na teoria e pelagianos na prática. Trabalham obsessivamente para agradar outras pessoas e até mesmo a Deus[6].

O caminho que a minha existência percorre atualmente é de estudar o campo das Ciências da Religião, na expectativa de conhecer e aprofundar-me nas diversas formas de compreender o sagrado, desmontando o quebra-cabeça dos conceitos universais e intocáveis que até então me foram apresentados, para depois remontá-los com outra perspectiva.

As grandes Religiões da humanidade necessitam conhecer um Deus mais humano, que batalha sempre em prol da humanização do homem, de um Deus para hoje, pois, o cuidado de Deus com o ser humano é o que podemos chamar de expressão mais sublime da religiosidade.

Pois a cada sociedade tem o Deus que merece, assim como afirmou Queiruga (1998, p. 11), “dize-me como é teu Deus, e dir-te-ei como é tua visão de mundo; dize-me como é tua visão do mundo, e dir-te-ei como é teu Deus”.



[1] Graduado em filosofia na UNICAP - Universidade Católica de Pernambuco; membro do Grupo de Pesquisa em Filosofia Antiga e Medieval; Mestrando em Ciências da Religião na UNICAP.

[2] QUEIRUGA, Andrés Torres. Um Deus para hoje. São Paulo: Paulus, 2003. 58 p.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Hemus, c1981. 294 p

[4] A kenósis, ou seja, "A DOUTRINA DO ESVAZIAMENTO DE CRISTO" é a grande passagem cristólógica que projeta a luz sobre a encarnação de Jesus Cristo. A verdade revelada é justamente a que resulta do pensamento do apóstolo Paulo, quando se voltou para o advento histórico de Cristo a fim de ilustrar a doutina da humilhação do Filho de Deus (cfr. 2Co 8:9), isto é, 'tornou-se a si mesmo como não tendo reputação alguma, ou melhor, esvaziou-se de si mesmo, sendo esta última frase a tradução literal do grego (ekenõsen), de que deriva o termo teológico e técnico (kenõsis) ou autoaniquilamento/esvaziamento de si. Jesus, que existiu em forma de Deus e igual a Deus, humilhando-se a Si mesmo tomando a forma de servo em lugar da pré-existente forma de Deus. O termo utilizado no texto de Fl 2.7 deixa claro o que foi o processo de esvaziamento que Cristo utilizou, isto é, (ekenõsen) tem como tradução a palavra 'esvaziou-se'. E a partir deste termo deu-se a origem a doutrina "kenótica" que ensinou que Cristo, na encarnação, se desfez de sua divindade e esvaziou-se de sua deidade parcialmente, na verdade em seus atributos e poder. Deixou de ser Deus (forma divina) para ser homem (criatura) por amor de muitos, a humanidade.

[5] Cf. YANCEY, PHILIP. Maravilhosa Graça. São Paulo: Editora Vida, 2000, 280 p.

[6] Ibide

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Educação sexual



Educação sexual
por Rosely Sayão

Em um domingo, uma família conversava animadamente. Avós, tios, pais e crianças trocavam idéias e contavam histórias. De repente, um garoto de oito anos diz: "Vó, você faz sexo oral no vô??" Os adultos congelaram, tentaram disfarçar, não souberam reagir.
A mãe de uma menina de cinco anos, ao dar banho na filha, ouviu a garota dizer que ela "chupava a chupeta" do primo de sete anos sempre que brincavam juntos. Desconfiada, perguntou se o primo ainda usava chupeta. A filha respondeu que ele tinha uma chupeta, que era o "pipi" dele.
Em uma escola, professores surpreenderam alunos do 3º ano -- com oito ou nove anos --, na hora do recreio, explorando genitais uns dos outros. Em outra, alunos do 2º ano contaram à professora que brincavam de "transar " no recreio.
Os adultos estão perdidos diante de tais manifestações de sexualidade de crianças de sete a dez anos, mais ou menos. As crianças mudaram. Nessa idade, tais expressões eram raras anos atrás. Eram comuns em crianças com até seis anos. Depois disso, a sexualidade "adormecia" até explodir na forma adulta com a chegada da puberdade e o início da adolescência.
Hoje, as referências mudaram. A adolescência, que é um fenômeno sociocultural, não mais se inicia depois da puberdade: se antecipa a ela. Crianças com nove, dez anos não mais querem ser crianças, e sim "pré-adolescentes" . Na prática, isso significa ter comportamento adolescente: ir a festas à noite sem os adultos, conversar horas na internet ou pelo celular, consumir com certa autonomia, namorar.
Sabemos que nossas crianças estão expostas a todo o tipo de informação do mundo adulto e, como consequência, estão eroticamente hiperestimuladas e não sabem diferenciar o que é do âmbito do relacionamento social daquilo que deveria fazer parte da intimidade. Não sabemos ainda como lidar com isso.
Não dá mais para dizer apenas, para essa garotada, que "esse não é assunto de criança" por um motivo óbvio: não as tratamos mais como crianças.
Precisamos, portanto, criar soluções alternativas.
Talvez uma possibilidade seja a de oferecermos uma educação sexual mais cuidadosa, planejada desde a educação infantil, nas escolas e em casa. E não podemos entender educação sexual como conversas sobre sexo. Precisamos ensinar às crianças, desde cedo, o que entendemos ser importante em relação à sexualidade: atitudes e cuidados com o próprio corpo e com o do outro, os conceitos de intimidade, de gênero, a moral familiar e a social sobre o assunto, por exemplo.
Outra possibilidade é a de não colaborar com a estimulação precoce. Poupar as crianças de frequentar reuniões sem adultos atentos, evitar detalhes desnecessários sobre o assunto e o acesso a sites e publicações de conteúdo erótico são atitudes responsáveis dos que convivem com essas crianças.
O mundo mudou e, por isso, as crianças mudaram. Isso exige que a educação mude também, por isso voltaremos a tratar do assunto outras vezes.

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ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Deus X Ciência = Contradição?

Veja o que diz o cientista de Deus na Revista ISTOÉ em Março de 2008

Através de leis da física e da filosofia, pesquisador polonês mostra que deus existe e ganha um dos mais cobiçados prêmios

Por TATIANA DE MELLO

Como um seminarista adolescente que se sente culpado quando sua mente se divide, por exemplo, entre o chamamento para o prazer da carne e a vocação para o prazer do espírito, o polonês Michael Keller se amargurava quando tentava responder à questão da origem do universo através de um ou de outro ramo de seu conhecimento – ou seja, sentia culpa. Ocorre, porém, que Keller não é um menino, mas sim um dos mais conceituados cientistas no campo da cosmologia e, igualmente, um dos mais renomados teólogos de seu país. Entre o pragmatismo científico e a devoção pela religião, ele decidiu fixar esses seus dois olhares sobre a questão da origem de todas as coisas: pôs a ciência a serviço de Deus e Deus a serviço da ciência. Desse no que desse, ele fez isso. O resultado intelectual é que ele se tornou o pioneiro na formulação de uma nova teoria que começa a ganhar corpo em toda a Europa: a “Teologia da Ciência”. O resultado material é que na semana passada Keller recebeu um dos maiores prêmios em dinheiro já dados em Nova York pela Fundação Templeton, instituição que reúne pesquisadores de todo o mundo: US$ 1,6 milhão.

O que é a “Teologia da Ciência”? Em poucas palavras, ela se define assim: a ciência encontrou Deus. E a isso Keller chegou, fazendo- se aqui uma comparação com a medicina, valendo-se do que se chama diagnóstico por exclusão: quando uma doença não preenche os requisitos para as mais diversas enfermidades já conhecidas, não é por isso que ela deixa de ser uma doença. De volta agora à questão da formação do universo, há perguntas que a ciência não responde, mas o universo está aqui e nós, nele. Nesse “buraco negro” entra Deus. Segundo Keller, apesar dos nítidos avanços no campo da pesquisa sobre a existência humana, continua-se sem saber o principal: quem seria o responsável pela criação do cosmo? Com repercussão no mundo inteiro, o seu estudo e sua coragem em dizer que Deus rege a ciência naquilo que a ciência ainda tateia abrem novos campos de pesquisa. “Por que as leis na natureza são dessa forma? Keller incentivou esse tipo de discussão”, disse a ISTOÉ Eduardo Rodrigues da Cruz, físico e professor de teologia da PUC de São Paulo.

Keller montou a sua metodologia a partir do chamado “Deus dos cientistas”: o big bang, a grande explosão de um átomo primordial que teria originado tudo aquilo que compõe o universo. “Em todo processo físico há uma seqüência de estados. Um estado precedente é uma causa para outro estado que é seu efeito. E há sempre uma lei física que descreva esse processo”, diz ele. E, em seguida, fustiga de novo o pensamento: “Mas o que existia antes desse átomo primordial?” Essas questões, sem respostas pela física, encontram um ponto final na religião – ou seja, encontram Deus. Valendo-se também das ferramentas da física quântica (que estuda, entre outros pontos, a formação de cadeias de átomos) e inspirando-se em questões levantadas no século XVII pelo filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz, o cosmólogo Keller mergulha na metáfora desse pensador: imagine, por exemplo, um livro de geometria perpetuamente reproduzido. Embora a ciência possa explicar que uma cópia do livro se originou de outra, ela não chega à existência completa, à razão de existir daquele livro ou à razão de ele ter sido escrito. Keller “apazigua” o filósofo: “A ciência nos dá o conhecimento do mundo e a religião nos dá o significado”. Com o prêmio que recebeu, ele anunciou a criação de um instituto de pesquisas. E já escolheu o nome: Centro Copérnico, em homenagem ao filósofo polonês que, sem abrir mão da religião, provou que o Sol é o centro do sistema solar.

A CAMINHO DO CÉU

Michael Keller usou algumas ferramentas fundamentais para ganhar o tão cobiçado prêmio científico da Fundação Templeton. Tendo como base principal a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, ele mergulhou nos mistérios das condições cósmicas, como a ausência de gravidade que interfere nas leis da física. Como explicar a massa negra que envolve o universo e faz nossos astronautas flutuarem? Como explicar a formação de algo que está além da compreensão do homem? Jogando com essas questões, que abrem lacunas na ciência, Keller afirma a possibilidade de encontrarmos Deus nos conceitos da física quântica, onde se estuda a relação dos átomos. Dependendo do pólo de atração, um determinado átomo pode atrair outro e, assim, Deus e ciência também se atraem. “E, se a ciência tem a capacidade de atrair algo, esse algo inexoravelmente existe”, diz Keller.