sábado, 19 de setembro de 2009

CARTA DE UM ATEU CRISTÃO!!!

CARTA DE UM ATEU CRISTÃO!!!

Por Carlos Vieira[1]

Devemos repensar continuamente nossas imagens de Deus e em caráter de urgência pensá-lo também para hoje, pois, muitos cristãos estão sendo acometidos por uma peste pós-moderna, diagnosticada por crise existencial, gerada por tal religiosidade e nomeada de desgraça. (Cf. QUEIRUGA 1998, p.5)[2]

Diante das supostas conversões a esse “cristianismo” constata-se a existência de um deus nada gracioso, o fundamentalismo hipócrita conduz o crente ao que podemos chamar de vazio ou abismo existencial.

Confesso que como muitos tentei segui-los em minha “santa” ingenuidade, mas não consegui, o peso dessa religiosidade foi o basta tornando-me mais um no meio de muitos, pois, a peste que se alastrou em determinados templos abriu-me os olhos para perceber o quanto sou avesso a essa teologia (vazia) e até a esse deus (desgraçado = ausência de Graça) que durante muito tempo me faz carregar uma cruz que não deveria ser minha, adoeci como muitos na tentativa de ser o que tais sacerdotes queriam que eu fosse (umsanto hipócrita”).

A experiência do abismo existencial existente na minha alma proporcionou-me uma experiência concreta da desgraça, tornei-me “ATEU CONVICTO”. Pois foi através dessa teologia hipócrita onde esse deus não passa de uma criação (projeção) gerada nas vontades humanas ( Freud explica), que barganha com os seus, que é um ser extremamente materialista e ambicioso, que me condena simplesmente por ser quem eu sou e que não possui a capacidade de mudar uma vírgula da minha vida, fez de mim um cético.

Hoje os templos são outros, pois, ao ligarmos as nossas TV´s durante as madrugas, nos damos conta de um mercado religioso dos movimentos pentecostais, mercado esse que nos deixa estarrecidos diante de propostas ousadas e muitas vezes absurdas, assim como afirmou o professor emérito da USP, José Arthur Giannoti, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, do dia 02-08-2009.

Diz Giannoti (2009),

Estava passeando pela TV quando dei com um culto da Igreja Mundial do poder de Deus. Teria rapidamente mudado de canal se não tivesse acabado de ler o interessante livro de Ronaldo de Almeida, “A Igreja Universal e seus Demônios – Um Estudo Etnográfico” [ed. Terceiro Nome, 152 págs.], que me abriu os olhos para o lado especificamente religioso dos movimentos pentecostais. Até então, via neles sobretudo superstição, ignorando o sentido transcendente dessas práticas religiosas. No culto da TV, o pastor simplesmente anunciou que, dado o aumento das despesas da igreja, no próximo mês, o dízimo subia de 10% para 20%. Em seguida, começou a interpelar os crentes para ver quem iria doar R$ 1.000, R$ 500 e assim foi descendo até chegar a R$ 1.

Com as teologias da prosperidade e todas as mazelas do pós-modernismo teológico, o cristianismo tem se tornado uma desgraça para muitos. Infelizmente o deus que se apresenta em shows Cristãos, é um ser extremamente vingativo, ambicioso, interesseiro, apresenta-se como bondoso no momento em que sua criação corresponde com as expectativas (teologias da prosperidade), tornando-se a imagem e semelhança do próprio homem.

Segundo o filósofo Friedrich Nietzsche “Deus está morto. Deus permanece morto. E nós o matamos. Como poderemos nós, os assassinos entre os assassinos, nos consolarmos? O que foi mais santo e poderoso de tudo que este mundo jamais possuiu sangrou até à morte sob nossas facas. Quem removerá este sangue de nós? Com que água nos purificaremos?” [3] A idéia da morte de Deus certamente tem implicações para todos as áreas da vida. Como acertadamente afirmou o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881): “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Pois com a “morte de Deus” o homem achou ter assumido o posto de criador de todas as coisas, achando ter dominado completamente a ciência, a religião e até mesmo o mundo. Pensou ter possuído o conhecimento sobre todas as coisas, inclusive achando-se no direito de velar e enterrar o seu criador, achou ter dominado a ética e a moral, o bem e o mal. E não é o que podemos perceber atualmente, pois durante o processo de modernização e de secularização o homem pensou dominar a vida e a existência humana.

Ó graça momentânea dos homens mortais, que nós procuramos mais do que a graça de Deus. Shakespeare, Ricardo III

Conheci a graça não através dessa teologia pós-moderna, mas através do amor, da kénosis[4] divina, pregada por um Jesus mais humano. Conheci um Jesus que vai muito além das expectativas humanas, que se compadece com a crise existencial de toda humanidade, nunca lançando a sua criação num abismo de onde não possa tirá-lo.

A graça significa que nãonada que possamos fazer para Deus nos amar mais - nenhuma quantidade de renuncia, nenhuma quantidade de conhecimento recebido em seminários, faculdades de teologia, nenhuma quantidade de cruzadas em benefícios de causas justas, a graça significa que nãonada que possamos fazer para Deus nos amar menos – nenhuma quantidade de racismo ou orgulho, pornografia ou adultério, ou até mesmo homicídio. A graça significa que Deus nos ama tanto quanto é possível um Deus infinito nos amar. Deus ama principalmente o mais desgraçado dos homens[5].

Eugene Peterson traça um contraste entre Agostinho e Pelágio, dois oponentes teológicos do século IV. Pelágio era educado, convincente e todos gostavam dele. Agostinho desperdiçou sua juventude na imoralidade, tinha um estranho relacionamento com sua mãe e fez muitos inimigos. Mas Agostinho conheceu a graça de Deus e acertou, enquanto Pelágio partiu dos esforços humanos e errou. Agostinho buscou apaixonadamente a Deus; Pelágio trabalhou metodicamente para agradar a Deus. Peterson continua dizendo que os cristãos tendem a ser agostinianos na teoria e pelagianos na prática. Trabalham obsessivamente para agradar outras pessoas e até mesmo a Deus[6].

O caminho que a minha existência percorre atualmente é de estudar o campo das Ciências da Religião, na expectativa de conhecer e aprofundar-me nas diversas formas de compreender o sagrado, desmontando o quebra-cabeça dos conceitos universais e intocáveis que até então me foram apresentados, para depois remontá-los com outra perspectiva.

As grandes Religiões da humanidade necessitam conhecer um Deus mais humano, que batalha sempre em prol da humanização do homem, de um Deus para hoje, pois, o cuidado de Deus com o ser humano é o que podemos chamar de expressão mais sublime da religiosidade.

Pois a cada sociedade tem o Deus que merece, assim como afirmou Queiruga (1998, p. 11), “dize-me como é teu Deus, e dir-te-ei como é tua visão de mundo; dize-me como é tua visão do mundo, e dir-te-ei como é teu Deus”.



[1] Graduado em filosofia na UNICAP - Universidade Católica de Pernambuco; membro do Grupo de Pesquisa em Filosofia Antiga e Medieval; Mestrando em Ciências da Religião na UNICAP.

[2] QUEIRUGA, Andrés Torres. Um Deus para hoje. São Paulo: Paulus, 2003. 58 p.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Hemus, c1981. 294 p

[4] A kenósis, ou seja, "A DOUTRINA DO ESVAZIAMENTO DE CRISTO" é a grande passagem cristólógica que projeta a luz sobre a encarnação de Jesus Cristo. A verdade revelada é justamente a que resulta do pensamento do apóstolo Paulo, quando se voltou para o advento histórico de Cristo a fim de ilustrar a doutina da humilhação do Filho de Deus (cfr. 2Co 8:9), isto é, 'tornou-se a si mesmo como não tendo reputação alguma, ou melhor, esvaziou-se de si mesmo, sendo esta última frase a tradução literal do grego (ekenõsen), de que deriva o termo teológico e técnico (kenõsis) ou autoaniquilamento/esvaziamento de si. Jesus, que existiu em forma de Deus e igual a Deus, humilhando-se a Si mesmo tomando a forma de servo em lugar da pré-existente forma de Deus. O termo utilizado no texto de Fl 2.7 deixa claro o que foi o processo de esvaziamento que Cristo utilizou, isto é, (ekenõsen) tem como tradução a palavra 'esvaziou-se'. E a partir deste termo deu-se a origem a doutrina "kenótica" que ensinou que Cristo, na encarnação, se desfez de sua divindade e esvaziou-se de sua deidade parcialmente, na verdade em seus atributos e poder. Deixou de ser Deus (forma divina) para ser homem (criatura) por amor de muitos, a humanidade.

[5] Cf. YANCEY, PHILIP. Maravilhosa Graça. São Paulo: Editora Vida, 2000, 280 p.

[6] Ibide

3 comentários:

Danilo Sergio Pallar Lemos disse...

Estou postando este comentário para parabenizar seus escritos, que possue boa erudição.
www.vivendoteologia.blogspot.com

Cristiane Alberto disse...

Carlos,

há muuuuiiiiiittttoooooo tempo não lia nada que iluminasse assim meu coração. Obrigada!

O seu texto é sincero, profundo, humilde, coeso. Dele exala um suave perfume, um culto racional ao Senhor. Isso daria horas de bate-papo e inúmeras xícaras de café kkkk

Sobre o "Santo Hipócrita" (adorei o termo!!!!!), fiquei pensando: não é isso que a 'igreja' e o mundo espera de nós? É alto o preço que pagamos por sermos humanos, demasiadamente humanos, não é?!

E sobre o "Jesus Humano" que nunca lança sua criação num abismo de onde não possa tirá-la... perfeito!

Penso no amor de Deus exatamente assim: vazio de sua própria divindade, sempre pronto para amar o Homem na plenitude de sua fragilidade.

LINDO! Parabéns.

Instituto Veritas disse...

Olá Carlos Vieira!

O seu discurso parece em grande medida, não de um ateu, ao cotrário, parece de um cristão que chora as mágoas da morte de Deus, isso fica evidente quando você lança mão de termos como "teologia hipócrita", "abriu-me os olhos", "minha “santa” ingenuidade".
Em tal cenário de ressentimento,não há legitimidade para fazer uso de Nietzsche, porque se Deus está morto em Nietzsche, cabe aos homens serem agora os deuses criadores, serem os artistas, por extensão, estais preparado para sê-lo, dito ainda, a morte de deus não é um movimento de tristesa, ela é sim a obrela que coloca o homem no locus da criação... de qualquer forma, devo lhe parabenizar...