quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Espiritualidade Integral

Eu sentado tranquilamente, diante do computador, digitando palavras comuns, em um teclado comum, em uma manhã comum de segunda-feira. Aos poucos, começo a perceber algo incomum no ar, na atmosfera que me cerca, uma garoa fina e suave, um lampejo dourado, uma nevoa melancólica espar­gindo-se e brilhando por toda parte, uma confusão silenciosa de platina psicodélica dando vida a todas as direções em que olho, o mundo ganha vida com almas pulsáteis e eloqüentes de cada gota de chuva, cada qual uma pequena abertura, todas elas pequenos orifícios, em uma infinidade radiante que, aos poucos, invade minha mente e alma. Meu coração começa a se encher com esse brilho, abrindo-se em gratidão e voltando-se, gracioso, para o mundo, uma felicidade radiante, dolorosa e extática que a tudo toca com encantamen­to, o desejo de amor e as lágrimas amargas do abraço terno, cada gota de chuva brilhante uma alma oculta me estendendo a mão e, depois, subitamente, uma cacofonia coletiva de deuses e deusas, todos cantando o mais alto possível, olhando-me, chamando-me e incitando-me cada vez mais alto, mais retumbante, e eu a eles e, depois, espontânea e incontrolavelmente, todos nós come­çamos a gritar, a chorar e a cantar em uníssono. Senhor, que som, que estrondo, enquanto soluçávamos e gritávamos: este simples momento presen­te não e a própria face do Espírito? Uma revelação total que nunca poderia ser melhorada de nenhuma outra maneira? E assim, com a obviedade total de tudo, a chuva simplesmente parou. Digito a próxima palavra comum em um teclado comum nesta manhã comum de segunda-feira. Porém, de alguma forma, o mundo nunca voltará a ser o mesmo.

WILBER, Ken. Espiritualidade Integral: uma nova função para a religião neste início de milânio. São Paulo: Aleph, 2006, p.209

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