segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O prato de Deus

“Os pobres que buscamos podem morar perto ou longe de nós. Podem ser material ou espiritualmente pobres. Podem estar famintos de pão ou de amizade. Podem precisar de roupas ou do senso de riqueza que o amor de Deus representa para eles. Podem precisar do abrigo de uma casa feita de tijolos e cimento ou da confiança de possuírem um lugar em nossos corações”.
(MADRE TERESA DE CALCUTÁ)

O prato de Deus

Assuero Gomes // Médico e Escritor
assuerogomes@terra.com.br

Deus sente fome nas entranhas do pobre. Grita Ele para o mundo insensível, sua fome, sua dor. Ele caminha de pés descalços na poeira da periferia e na lama dos esgotos a céu aberto. A fome de Deus está disseminada nos estômagos e na desilusão dos pobres.

O fundo do prato do pobre é o espelho da sociedade sem Deus.

Deus procura o grão que semeou em dom gratuito e nada encontra. Deus procura a misericórdia que fez chover sobre as plantações no tempo certo, sobre os ricos e os pobres, sobre os campos, que são seus, e nada encontra.

O fundo do prato do pobre está vazio, cheio de desesperança.

Cabe a nós tornar farta a refeição de Deus, repartindo o grão de trigo, feito em pão, o Pão da fraternidade, da justiça e da paz, e assim conseguirmos ouvir o sorriso de Deus, nas bocas saciadas dos pobres. Ver a face alegre e amorosa de Deus no sorriso saciado do pobre.

O prato de Deus é a fome do pobre.

Quanto estaríamos dispostos a sacrificar para ter uma visão da face de Deus? Quantos quilômetros caminharíamos ansiosos para presenciar alguma manifestação da divindade, nem que fosse um pequeno sinal, um pequeno milagre? Em verdade, em verdade, é preciso reconhecer Deus na pessoa do pobre. Quem quiser ver a Deus deve olhar o próprio reflexo no fundo do prato vazio, na caneca vazia, daqueles que passam fome.

A revelação de um Deus que se faz carne num pedaço de pão obrigatoriamente nos remete a sentir sua ausência na ausência do pão. Um Deus que, na sua misteriosa concepção de Amor se apresenta na fraternidade e na justiça, obrigatoriamente nos leva a sentir sua ausência na presença dos famintos e injustiçados.

O prato quebrado em milhões de cacos vazios é a própria expressão de um bilhão de famintos na face da Terra. É o rosto de Deus partido em fragmentos de dor, espalhado no rosto sem rosto dos filhos da miséria.

A misericórdia e a compaixão são a chuva que deve regar os campos e as colinas. O trabalho humano reconhecido e retribuído dignamente é o arado que deve sulcar a terra, arado este, confeccionado com o metal das armas derretidas e fundidas no novo, as milícias transformadas em mutirão, e as sementes serão então colocadas com carinho no seio da terra generosa, no ventre da fartura do amanhã.

Homens e mulheres são sementes plantadas ao pôr do sol. Nascem com a aurora e findam ao entardecer. São sementes criadas para serem boas sementes e darem bons frutos. Plantadas, farão florescer as árvores que foram entre a aurora e o pôr-do-sol. Suas obras, assim serão frutos, resplandecerão na manhã do novo dia, a cada nova aurora. E alimentarão a muitos, e o prato de Deus jamais ficará vazio.

Que nos vale ganhar fortunas, acumular prestígio, nos deixar seduzir pelos encantos do poder, se nada disso entrará conosco na terra e nos servirá na presença de Deus, na nossa aurora definitiva? Ele nos mostrará seu prato vazio e nos perguntará porque não O alimentamos quando Ele estava com fome e não lhe demos de beber quando Ele estava com sede.

O prato de Deus está vazio.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SOBRE A TEOLOGIA


Estamos nestes dias vivenciando o paradoxo de um Congresso sobre Ensino Religioso em uma Universidade Federal. Isso não tem espantado tanto, porque temos participado dos debates que se travam país afora sobre a modalidade do Ensino Religioso que deve vigorar nas escolas da República brasileira (confira, a propósito, várias notícias e uma enquete em nosso blog e veja AQUI um balanço dos desdobramentos provocados pelos acordos recentes entre o Estado e as igrejas). A tendência política é de condescendência para com a religiosidade cristã majoritária e a possibilidade de uso dos recursos públicos para a catequização (optativa!) nas escolas. Mas não menos acalorada e complexa está se tornando uma outra discussão: sobre o lugar da Teologia nas universidades tupiniquins, mesmo nas confessionais ou comunitárias.
Na SOTER deste ano tomamos parte em um Grupo de Trabalho sobre o Parecer 118/09 do Conselho Nacional de Educação, que trouxe novas orientações para cursos de Teologia reconhecidos pelo MEC, exigindo o respeito aos princípios de “exclusão da transcendência” e de “não-confessionalidade” nos estudos, além da indicação de “eixos curriculares” vinculados às ciências humanas. O parecer pode ser visto AQUI e indica, pela análise unânime daquele Grupo, um enquadramento da Teologia dentro do campo epistemológico das Ciências da Religião, afastando-a dos vínculos eclesiais e lançando-a na direção de uma Teologia Civil e/ou Pública. A tendência acadêmica, de fato, é exigir que a Teologia se redefina metodologicamente como uma interpretação das tradições de fé e não se limite a expor uma doutrina religiosa.
Agora descobrimos que, até 16 de outubro, está sob Consulta Pública, no Portal do Ministério da Educação, um "Projeto de Referenciais Nacionais dos Cursos de Graduação", que deverá constituir-se em referência para o aprimoramento dos projetos pedagógicos e para a orientação dos estudantes nas escolhas profissionais. O projeto visa o ajustamento de todos os cursos, em todas as áreas universitárias, mas no que diz respeito à de Teologia e Ciências da Religião, prevê a transformação das Graduações na área (mesmo as Licenciaturas em Ciências da Religião) em cursos de bacharelado em Teologia (veja AQUI). Isso, todavia, porque entende, na mesma linha do supracitado Parecer, que os parâmetros Referenciais para a Teologia (que podem ser vistos AQUI) devem direcionar o curso no sentido de uma hermenêutica das religiões.
A última assembléia da ANPTECRE decidiu, com efeito, que o próximo congresso da área será em 2011, em São Paulo, e, por sugestão nossa, sobre os entroncamentos e entrechoques das Teologias com as Ciências da Religião, tanto nos aspectos epistemológicos quanto nos político-pedagógicos.
Mas é premente a nossa participação nessa Consulta Pública que se anunciou. Veja a nossa posição sobre o assunto AQUI. Em resumo: a Teologia, academicamente, ainda que enfatize uma tradição religiosa, deve buscar uma ressignificação enquanto ciência que desenvolve a interpretação de mitos, ritos e símbolos de tradições de fé – o que implica tanto a caracterização dos conceitos teológicos como símbolos, quanto a redescoberta de conteúdos racionais em narrativas míticas. Mas mesmo assim, ela será apenas uma das perspectivas interpretativas em Ciências da Religião, que como área transdisciplinar deverá ter também os seus cursos de graduação e pós - os quais são, aliás, ao nosso ver, os mais adequados para formarem os profissionais do Ensino Religioso em vista da cidadania plena!
Gilbraz Aragão

Abaixo transcrevemos o essencial desse Projeto de Referenciais para a Teologia:
ÁREA III – HUMANIDADES
REFERENCIAL DE TEOLOGIA - BACHARELADO
CARGA HORÁRIA MÍNIMA: 2400 horas
PERFIL DO EGRESSO:
O Bacharel em Teologia ou Teólogo atua na promoção do saber teológico, na interpretação de textos, símbolos e documentos de diferentes tradições religiosas; na identificação, na descrição e na análise do fenômeno religioso em diferentes contextos e condições históricas e culturais. Atua também no planejamento e no desenvolvimento de estratégias de capacitação de recursos humanos para as atividades comunitárias de caráter religioso; no ensino religioso em contextos públicos e privados; nas atividades de aconselhamento; nas capelanias; na gestão de organizações, grupos e instituições religiosas; na exposição formal do saber teológico; no planejamento e administração dos ritos religiosos; no planejamento e na execução de projetos de desenvolvimento de organizações, grupos e instituições religiosas; no planejamento e na execução de investigação científica relacionada ao fenômeno religioso em diferentes contextos e sistemas simbólicos.
TEMAS ABORDADOS NA FORMAÇÃO:
Linguagem e Contexto Histórico e Cultural Relacionados aos Diferentes Textos e Tradições Religiosas; História do Pensamento Cristão na Idade Antiga, Média, Moderna e Contemporânea; Procedimentos Hermenêuticos; Mitologia e História das Religiões; Antropologia Religiosa; Fenomenologia da Experiência Religiosa; Psicologia Geral e da Religião; Sociologia da Religião; Epistemologia e História da Filosofia; Metafísica; Axiologia; Teologia e Sistemas Simbólicos da Religiosidade Indígena e Afro-Brasileira; Metodologias e Procedimentos de Investigação em Ciências da Religião; História e Desenvolvimento dos Ritos, Símbolos e Expressões Religiosas Brasileiras; Teologia e Práticas em Capelania, Aconselhamento e Retórica; Religião, Arte e Cultura; Gestão de Pessoas e de Processos; Liderança; Relações Humanas nas Organizações Religiosas; Procedimentos de Mediação e Diálogo Inter-Religioso; Religião, Ciência e Tecnologia; Ética nas Tradições Religiosas.
ÁREAS DE ATUAÇÃO:
O Bacharel em Teologia ou Teólogo pode atuar em expressões religiosas comunitárias; em capelania militar, escolar, hospitalar e em organizações de trabalho; em projetos sociais e educacionais relacionados às organizações religiosas; em ensino religioso no sistema educacional brasileiro, privado ou público; em instituições, grupos e comunidades organizações religiosas.
INFRAESTRUTURA RECOMENDADA:
Laboratório de planejamento e administração de ritos religiosos