segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A PASSAGEM DE ZILDA ARNS




Texto extraído do blog do nosso mestrado em Ciências da Religião da UNICAP. http://www.crunicap.blogspot.com/

A Dra. Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, faleceu no recente terremoto do Haiti. Como homenagem ao seu testemunho de fé e amor, compartilhamos aqui o discurso que ela ali proferiu no dia 12 de janeiro:

Agradeço o honroso convite que me foi feito. Quero manifestar minha grande alegria por estar aqui com todos vocês em Porto Príncipe, no Haiti, para participar da assembleia de religiosos.

Como irmã de dois franciscanos e de três irmãs da Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, estou muito feliz entre todos vocês. Dou graças a Deus por este momento. Na realidade, todos nós estamos aqui, neste encontro, porque sentimos dentro de nós um forte chamado para difundir ao mundo a boa notícia de Jesus. A boa notícia, transformada em ações concretas, é luz e esperança na conquista da PAZ nas famílias e nas nações. A construção da Paz começa no coração das pessoas e tem seu fundamento no amor, que tem suas raízes na gestação e na primeira infância, e se transforma em fraternidade e responsabilidade social.

A Paz é uma conquista coletiva. Tem lugar quando encorajamos as pessoas, quando promovemos os valores culturais e éticos, as atitudes e práticas da busca do bem comum, que aprendemos com nosso mestre Jesus: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenha em abundância" (Jo 10,10).

Espera-se que os agentes sociais continuem, além das referências éticas e morais de nossa Igreja, a ser como Ela, mestres em orientar as famílias e comunidades, especialmente na área da saúde, educação e direitos humanos. Deste modo, podemos formar a massa crítica das comunidades cristãs e de outras religiões, em favor da proteção da criança desde a concepção, e mais excepcionalmente até os seis anos, e do adolescente. Devemos nos esforçar para que nossos legisladores elaborem leis e os governos executem políticas públicas que incentivem a qualidade da educação integral das crianças e saúde, como prioridade absoluta.

O povo seguiu Jesus porque ele tinha palavras de esperança. Assim, nós somos chamados para anunciar as experiências positivas e os caminhos que levam as comunidades, as famílias e os pais a serem mais justos e fraternos.

Como discípulos e missionários, convidados a evangelizar, sabemos que força propulsora da transformação social está na prática do maior de todos os mandamentos da Lei de Deus: o Amor, expressado na solidariedade fraterna, capaz de mover montanhas: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos" significa trabalhar pela inclusão social, fruto da Justiça; significa não ter preconceitos, aplicar nossos melhores talentos em favor da vida plena, prioritariamente daqueles que mais necessitam. Somar esforços para alcançar os objetivos, servir com humildade e misericórdia, sem perder a própria identidade. Todo esse caminho necessita de comunicação constante para iluminar, animar, fortalecer e democratizar nossa missão de fé e vida. Cremos que essa transformação social exige um investimento máximo de esforços para o desenvolvimento integral das crianças. Esse desenvolvimento começa quando a criança se encontra ainda no ventre sagrado da sua mãe. As crianças, quando estão bem cuidadas, são sementes de Paz e Esperança. Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças.

Não é por nada que disse Jesus: "... se vocês não ficarem iguais a estas crianças, não entrarão no Reino dos Céus" (MT 18,3). E "deixem que as crianças venham a mim, pois deles é o Reino dos Céus" (Lc 18,16)...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Santo Agostinho, um pré-medieval no pós-moderno?





Os tempos da aclamada pós-modernidade apontam para a ressurreição das turbulências de uma subjetividade atormentada; a exuberância tecnológica (privilégio ainda restrito) não resolveu a angústia provocada pelo questionamento sobre a individualidade (o que sou eu?), sobre a origem dos males (por que tudo isso?), sobre a felicidade (onde estará?). A exclusividade da razão triunfante parece não bastar; não explica tudo nem alivia sempre. Queremos lenitivos para além da fugacidade consumista, desejamos afastar esse perene estado de intranqüilidade. Muito conseguimos materialmente e, talvez, nos tenhamos perdido. Agostinho (354-430) pode nos socorrer! Esse pré-medieval (que o nosso contemporâneo filósofo alemão Karl Jaspers chamou de "o primeiro homem moderno") viveu mergulhado nessas humanas questões e sobre elas escreveu fundamente. Venerado como santo pelos católicos é, sem dúvida, patrimônio cultural da humanidade. Se é possível perguntar o que seria de Deus sem Bach, mais ainda devemos indagar: o que seria do Ocidente sem Agostinho? Essa necessária admiração pelo teólogo africano (nascido em Tagaste, na atual Argélia) desponta, vigorosa, no ensaio biográfico sobre ele elaborado pelo pensador norte-americano Garry Wills. Aos 65 anos de idade e originário de Atlanta (na Geórgia), Wills é autor de vasta obra que abarca desde estudos clássicos até mordazes análises do cotidiano político da América do Norte. Ganhador do Pulitzer em 1992 (com livro sobre Lincoln), já escreveu sobre temas variados como ciência cristã, o papa Pio 11, a América de John Wayne, Shakespeare e, agora, sobre Agostinho. A excelente biografia de Agostinho tecida por Garry Wills não se restringe a mera concatenação asséptica de fatos, datas e idéias; o escritor narra a vida do santo a partir das dores, sofrimentos, deslizes e conquistas que inundaram os 76 anos de existência daquele que ficou conhecido, também, como o "bispo de Hipona". O autor da biografia vai além de narrativas cronológicas; investe (quase furioso) contra o que considera dois erros modernos de interpretação: o papel obsessivo da sexualidade na vivência de Agostinho e, inédito, recusa o título usual da mais conhecida e apaixonante obra agostiniana, "Confissões". Prefere chamá-la de "O Testemunho", afirmando que o "confiteri" usado pelo bispo tinha o sentido de corroborar, testemunhar a presença de Deus nele, em vez de confessar equívocos. Wills nos conduz para o cerne da atribulada alma agostiniana e, ao nela penetrarmos, levados pela respeitosa e crítica visão do biografador, nos perturbamos com as tão atuais dúvidas de um pré-medieval. Afinal, é por intermédio dele que o cristianismo ganha consistência teológica. Religião nascida entre os que, hoje, chamaríamos de excluídos, nos seus quatro primeiros séculos apoiou-se mais em uma prática religiosa do que na elaboração de um corpo teórico sólido e articulado como o estruturado pelo africano. Sua obra escrita compõe-se de 93 livros (em cálculo dele), 300 cartas e o registro de 400 sermões. Faltava ao cristianismo uma filosofia (enquanto teoria) que desse substância racional aos ditames da fé transmutados em teologia. Vários pensadores e religiosos cristãos antes dele haviam procurado fazer essa ponte. No entanto -é em e com Agostinho que tal condição se realiza, ao edificar o pensamento de Platão como o andaime de suas reflexões, ofereceu o que ainda estava ausente: uma filosofia cristã como poderosa ferramenta de justificação das Escrituras. O que Wills nos mostra é o caminho seguido por Agostinho até chegar a suas concepções sobre Deus, corpo e alma, livre-arbítrio e vontade, o bem e o mal, o tempo e a infinitude e, mais importante, a graça divina e a felicidade. É um livro claro, sem ser simplório ou didatista; é breve e consegue ir ao âmago. Não é para quem desconhece Agostinho completamente: é preciso, para melhor fruir, ter algumas noções de história do período, platonismo, Bíblia, heresias da época etc. Agostinho, como a Itabira de Drummond, pode ser apenas uma lembrança em nossas retinas tão fatigadas, mas como dói. Por isso vale sempre, ao visitá-lo, visitarmos a nós mesmos.

CORTELLA, Mário Sérgio. Um pré-medieval no pós-moderno?. Folha de São Paulo, 15 set.,1999