segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Santo Agostinho, um pré-medieval no pós-moderno?





Os tempos da aclamada pós-modernidade apontam para a ressurreição das turbulências de uma subjetividade atormentada; a exuberância tecnológica (privilégio ainda restrito) não resolveu a angústia provocada pelo questionamento sobre a individualidade (o que sou eu?), sobre a origem dos males (por que tudo isso?), sobre a felicidade (onde estará?). A exclusividade da razão triunfante parece não bastar; não explica tudo nem alivia sempre. Queremos lenitivos para além da fugacidade consumista, desejamos afastar esse perene estado de intranqüilidade. Muito conseguimos materialmente e, talvez, nos tenhamos perdido. Agostinho (354-430) pode nos socorrer! Esse pré-medieval (que o nosso contemporâneo filósofo alemão Karl Jaspers chamou de "o primeiro homem moderno") viveu mergulhado nessas humanas questões e sobre elas escreveu fundamente. Venerado como santo pelos católicos é, sem dúvida, patrimônio cultural da humanidade. Se é possível perguntar o que seria de Deus sem Bach, mais ainda devemos indagar: o que seria do Ocidente sem Agostinho? Essa necessária admiração pelo teólogo africano (nascido em Tagaste, na atual Argélia) desponta, vigorosa, no ensaio biográfico sobre ele elaborado pelo pensador norte-americano Garry Wills. Aos 65 anos de idade e originário de Atlanta (na Geórgia), Wills é autor de vasta obra que abarca desde estudos clássicos até mordazes análises do cotidiano político da América do Norte. Ganhador do Pulitzer em 1992 (com livro sobre Lincoln), já escreveu sobre temas variados como ciência cristã, o papa Pio 11, a América de John Wayne, Shakespeare e, agora, sobre Agostinho. A excelente biografia de Agostinho tecida por Garry Wills não se restringe a mera concatenação asséptica de fatos, datas e idéias; o escritor narra a vida do santo a partir das dores, sofrimentos, deslizes e conquistas que inundaram os 76 anos de existência daquele que ficou conhecido, também, como o "bispo de Hipona". O autor da biografia vai além de narrativas cronológicas; investe (quase furioso) contra o que considera dois erros modernos de interpretação: o papel obsessivo da sexualidade na vivência de Agostinho e, inédito, recusa o título usual da mais conhecida e apaixonante obra agostiniana, "Confissões". Prefere chamá-la de "O Testemunho", afirmando que o "confiteri" usado pelo bispo tinha o sentido de corroborar, testemunhar a presença de Deus nele, em vez de confessar equívocos. Wills nos conduz para o cerne da atribulada alma agostiniana e, ao nela penetrarmos, levados pela respeitosa e crítica visão do biografador, nos perturbamos com as tão atuais dúvidas de um pré-medieval. Afinal, é por intermédio dele que o cristianismo ganha consistência teológica. Religião nascida entre os que, hoje, chamaríamos de excluídos, nos seus quatro primeiros séculos apoiou-se mais em uma prática religiosa do que na elaboração de um corpo teórico sólido e articulado como o estruturado pelo africano. Sua obra escrita compõe-se de 93 livros (em cálculo dele), 300 cartas e o registro de 400 sermões. Faltava ao cristianismo uma filosofia (enquanto teoria) que desse substância racional aos ditames da fé transmutados em teologia. Vários pensadores e religiosos cristãos antes dele haviam procurado fazer essa ponte. No entanto -é em e com Agostinho que tal condição se realiza, ao edificar o pensamento de Platão como o andaime de suas reflexões, ofereceu o que ainda estava ausente: uma filosofia cristã como poderosa ferramenta de justificação das Escrituras. O que Wills nos mostra é o caminho seguido por Agostinho até chegar a suas concepções sobre Deus, corpo e alma, livre-arbítrio e vontade, o bem e o mal, o tempo e a infinitude e, mais importante, a graça divina e a felicidade. É um livro claro, sem ser simplório ou didatista; é breve e consegue ir ao âmago. Não é para quem desconhece Agostinho completamente: é preciso, para melhor fruir, ter algumas noções de história do período, platonismo, Bíblia, heresias da época etc. Agostinho, como a Itabira de Drummond, pode ser apenas uma lembrança em nossas retinas tão fatigadas, mas como dói. Por isso vale sempre, ao visitá-lo, visitarmos a nós mesmos.

CORTELLA, Mário Sérgio. Um pré-medieval no pós-moderno?. Folha de São Paulo, 15 set.,1999

Um comentário:

Filósofo Calvinista disse...

Grande Filósofo e Cientista da Religião. Tens essa obra que citou no artigo? Se tiveres leva lá na contadoria, queria dar uma olhada.