segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Gianni Vattimo


O movimento de 1968 representa o início do pós-moderno: com o declínio da metafísica, ou seja, com o declínio de uma idéia de racionalidade central que o filósofo poderia possuir, e sobretudo, porque outras culturas passaram a se fazer ouvir (penso na revolta dos povos das ex-colônias, a qual se reflete, do ponto de vista teórico, no estruturalismo: todas as culturas possuem direitos iguais), os intelectuais perdem seu papel de guia do príncipe, de assessores do soberano.
A opinião pública torna-se sempre mais plural, uma espécie de caos (positivo), onde se chocam opiniões diferentes e diferentes visões de mundo. A própria revolta juvenil – não apenas a estudantil – daquela época é um reflexo desse declínio do “pensamento único”, das auctoritates, sobretudo no plano moral: crítica da família, desconfiança em relação às instituições, um desejo geral de renovação.
A primeira reação dos intelectuais à crise de seu próprio papel, ligada à crise da metafísica, ou seja, à fé numa única racionalidade, que podia ser identificada com a cultura dominante ocidental, é uma espécie de refluxo à esfera privada: cada um trabalha para si, numa conexão direta com as demandas do “mercado”, dos editores, da mídia, do “público” como um todo. Felizmente, não existe mais a idéia de que o intelectual seja um “guia”; infelizmente, porém, também não existe mais a crença de que ele deva interpretar num sentido progressivo, em direção a um projeto qualquer, o estado de espírito das pessoas.
Nessa posição dos intelectuais espelha-se todo os aspectos positivos e negativos do pós-moderno: o fim das grandes meta-narrativas – e portanto, a libertação de esquemas metafísicos de origem marxista, hegeliana, positivista; por outro lado, a perda de qualquer engajamento em favor daquilo que a ideologia anterior chamava de progresso geral. Acontece nesse caso algo parecido como que ocorreu com a religião: após a perda das grandes certezas metafísicas, que eram também a base do ateísmo dos filósofos, torna-se novamente possível pensar seriamente na religião como engajamento pessoal. Assim, o relativo “deserto” da pós-modernidade abre também o caminho - ou poderá abrir o caminho – para uma nova concepção do humano ou do humanismo, em que o destino comum faz-se perceber como um fato de alteridade elementar: pensemos na popularidade de um filósofo como Lévinas, com sua teoria da face do outro entendido como fonte primeira de responsabilidade, para além de qualquer conceito metafísico geral.
Hoje o papel público dos intelectuais, que vinha sendo exercido até agora num sentido negativo – como desconstrução pós-moderna das grandes narrativas metafísicas e político-morais – pode-se tornar novamente de certa forma positiva; mas não falando em nome do universal – em que não mais acreditamos e que percebemos sempre como uma pretensão disfarçada de “Razão” – mas tomando consciência de nosso próprio posicionamento: histórico, cultural (também como pertencimento a essa ou aquela cultura) e mesmo nosso posicionamento de “classe”. Não se trata somente de dar voz a interesses particulares, mas de interpretar, ou seja, colocar de forma legível para todos, perspectivas, expectativas, esperanças, exatamente daquela parte da humanidade que até agora não teve a capacidade de se fazer ouvir. Por isto, a tarefa do intelectual permanece sendo um papel “crítico”, ainda que não meramente desconstrutivo, destrutivo. Pois o ser, se é que de fato é algo, é o futuro (recordando a lição de Heidegger), portanto, a crítica constitui em dar voz àqueles projetos que ainda não conseguiram ser compreendidos. Como dizia Walter Benjamin, é preciso que se faça ouvir a voz dos vencidos da história. A repugnância que todos temos em relação ao conformismo deve encontrar aqui sua verdadeira expressão: escutar as vozes que até agora foram caladas e reprimidas. Não unicamente por dizerem coisas importantes, mas porque são “outras” e o ser (mas, se se quiser, Deus ele próprio) é sempre outro ou o outro.
Nietzsche e Heidegger, sobretudo o último estão muito presentes nessa reflexão que provém livremente do espírito de 68. Nietzsche, pois nos ensina a pensar que o nihilismo, ou seja, o declínio das grandes meta-narrativas metafísicas, dos assim-chamados valores, não é uma lástima, mas a possibilidade de inventar novos valores, menos repressivos, para nossa convivência. Heidegger, pois no mesmo espírito, convida-nos a não pensar em nosso destino em termos de aceitação da objetividade dada (que é sempre um fato de autoridade e de domínio), mas em termos de projeto.
A polêmica contra o relativismo parece-me ser, sobretudo, um tema das “autoridades” religiosas e políticas de todos os tipos, contra a liberdade. De resto, não há pessoas “relativistas”, pois ninguém professa a própria verdade pensando que as outras verdades sejam tão verdadeiras quanto a sua. Há instituições “relativistas”, que são simplesmente as democracias liberais, em que vigora a liberdade de pensamento. Será que talvez gostaríamos de eliminá-las para garantir a “segurança” contra os “terroristas”?
Nada de retorno à tradição, portanto, isso significaria sempre uma submissão à autoridade. Ao contrário, precisamos de uma discussão púiblica mais intensa, de uma participação política mais ampla e contínua dos cidadãos, para vencer aquela que sempre mais se revela como uma asfixia da democracia nos países obcecados pela “luta contra o terrorismo”.
Uma perspectiva pós-moderna, que é também uma perspectiva anti-metafísica, prefere liberalismo e democracia não porque estejam fundados sobre valores humanos “eternos”, mas porque representam as únicas possibilidades de dar um sentido não unicamente retrospectivo à história. Como afirma Heidegger, nós somos “projetos” e por isso precisamos de liberdade e de espaços abertos.

G. Vattimo
[Trad. Andrea Lombardi]

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Lamento junto a Deus pelo Haiti


O texto abaixo foi extraído do blog do Noblat e quem escreve é Leonardo Boff, teólgo, em artigo publicado no dia 25-01-2010.


Lamento junto a Deus pelo Haiti

Há uma via-sacra de sofrimento com estações que nunca acabam no pequeno e pobre pais do Haiti. Sofrimento no corpo, na alma, no coração, na mente assaltada por fantasmas de pânico e de morte.
Há também muito sofrimento em todos os humanos que não perderam o senso mínimo de humanidade e de solidariedade. Desta com-paixão universal nasce uma misteriosa comunidade que anula as diferenças, as religiões, as ideologias que antes nos separavam e até nos dividam.
Agora só conta a comum humanitas absurdamente maltratada e que deve ser socorrida.
Em cada haitiano que sofre soterrado ou que morre de sede e de fome, morremos um pouco também todos nós junto com eles. Finalmente somos irmãos e irmãs da única e mesma família humana. Como não sofrer?
Mas há também um sofrimento profundo e dilacerante nas pessoas de fé que proclamam que Deus é Pai e Mãe de bondade e de amor.
Como continuar a crer? Queixosos nos perguntamos: "Deus, onde estavas quando se formou aquele tremor raso que dizimou os teus filhos e filhas mais pobres e sofridos de todo o extremo Ocidente? Por que não intervieste? Não és o Criador da Terra com seus continentes e suas placas tectônicas? Não és Pai e Mãe de ternura, especialmente, daqueles que são como teu Filho Jesus os injustamente crucificados da história? Por que"?
Este silêncio de Deus é aterrador porque ele simplesmente não tem resposta. Por mais que gênios como Jó, Buda, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz e outros tivessem arquitetado argumentos para isentar Deus e esclarecer a dor, nem por isso a dor desaparece e a tragédia deixa de existir.
A compreensão da dor não suspende a dor, assim como ouvir receitas culinárias não faz matar a fome.
O próprio Jesus não foi poupado da angústia do sofrimento. Do alto da cruz lançou um brado lancinante ao céu, queixando-se:"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste"?
Damos razão a Jó, irritado com seus "amigos" que lhe queriam explicar o sentido de sua dor:"Vós não sois senão charlatães, não sois senão médicos de mentira; se ao menos vos calásseis, os homens tomar-vos-iam por sábios". Mas não podemos calar.
A dor é demasiada e a noite, tenebrosa. Precisamos de alguma luz.
Mesmo sem luz, continuamos a crer com o coração partido, porque estamos convencidos de que o caos e a tragédia não podem ter a última palavra. Deus é tão poderoso que pode tirar um bem do mal. Apenas não sabemos como.
Esperançosos, fazemos uma aposta nesta possibilidade que não deixa nossas lágrima serem vãs. Ademais, cremos que Deus pode ser aquilo que nós não compreendemos. Acima da razão que quer explicações, há o mistério que pede silêncio e reverência.
Ele esconde o sentido secreto de todos os eventos também daqueles trágicos.
Identifico-me com o poema de um grande argentino que perdeu um filho na repressão militar: Juan Gelman:
"Pai, desce do céus, esqueci as orações que me ensinou minha avó, pobrezinha, ela agora repousa, não tem mais que lavar, limpar, não tem mais que preocupar-se, andando o dia todo atrás da roupa, não tem mais que velar de noite, penosamente, rezar, pedir-te coisas, resmungando docemente".
"Pai, desce dos céus, se estás, desce, então, pois morro de fome nesta esquina, não sei para que serve haver nascido, olho as mãos inchadas, não tem trabalho, não tem, desce um pouco, contempla isto que sou, este sapato roto, esta angústia, este estômago vazio, esta cidade sem pão para meus dentes, a febre, cavando-me a carne, este dormir assim, sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido".
"Te digo que não entendo, Pai, desce, toca-me a alma, toca-me o coração, eu não roubei, nem assassinei, fui criança e em troca me golpeiam e golpeiam, te digo que não entendo, Pai, desce, se estás, pois busco resignação em mim e não tenho e vou encher-me de raiva e estou disposto a brigar e vou gritar até estourar o pescoço de sangue, porque não posso mais, tenho rins, e sou um homem, desce".
"Que fizeram de tua criatura, Pai? Um animal furioso que mastiga a pedra da rua? Pai, desce".
Que o Pai desça sobre os haitianos com seu amor.

Leonardo Boff é teólogo