segunda-feira, 28 de junho de 2010

Um dia chuvoso...

Hoje, segunda-feira, 28 de junho de 2010, acordei às 05h30min de uma manhã chuvosa. Depois de ontem seria impossível não contemplar o brilho do sol, pois tudo voltou a brilhar, e como diz uma amiga, “está tudo azul”...
O mundo vive e respira a copa do mundo (é incrível como o mundo, as pessoas e até mesmo a vida para por isso). Ontem, dia 27 de junho, jogou a Argentina e o México pelas oitavas de final da copa do mundo, mas eu fui ao cinema iluminar um pouco mais a minha vida.
Confesso que acordei ainda pensativo com o que vi. Trata-se de um filme com uma beleza que marca e nos deixa ainda mais poéticos, perdi o sono, ou seja, o azul do sol brilhou em meus olhos e trouxe-me até aqui para compartilhar um pouco de sentimentos... Sentimentos que voltaram a iluminar-me, mesmo depois de um feriadão nada agradável, só o filme para lembrar-me que sou poesia pura e simples.

Hoje será um dia chuvoso mas com certeza de brilho azul. Volto a ter “motivos” para dizer que:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.


Cecília Meireles



Por isso, "se ao menos houvesse uma equação matemática para o amor", eu a chamaria de Mary e Max...

Carlos Vieira
28 de junho de 2010, às 06h25min de uma manhã chuvosa, mas por dentro de mim está tudo azul...


Crítica: Mary e Max
Érico Borgo
15 de Abril de 2010


Mary & Max (Mary and Max, 2009), animação longa-metragem de stop-motion escrita e dirigida por Adam Elliot, é uma exploração de improbabilidades. O filme tem em sua premissa uma chance ínfima e acaba ele mesmo um em um milhão: uma produção com personagens de massinha que resulta absolutamente tocante.
Depressivo no tom e no visual (seria mais sensato chamá-lo de desenho "desanimado", já que muito pouco efetivamente acontece na tela), o filme acompanha dois personagens solitários, cujas vidas se cruzam pelo maior dos acasos: uma página aleatória aberta em uma lista telefônica. Motivada por uma dúvida infantil, a australiana Mary Daisy Dinkle, 8 anos, decide escrever ao nova-iorquino Max Jerry Horowitz, 44 anos. Junto à carta, alguns desenhos, uma barra de chocolate e a dúvida: "de onde vêm os bebês nos Estados Unidos". A correspondência inocente muda a vida de ambos para sempre, iniciando uma história que transcorre por mais de uma década.
A direção de arte é inspiradora. Elliot, dono de um Oscar de curta animado (Harvie Krumpet, 2003), opta por protagonistas caricatos e quase malfeitos de tão simples. Os cenários são muito mais ricos - a Austrália e seus tons terrosos contrastando com a cinzenta Nova York. É tudo proposital. Enquanto uma Pixar capricha em seus personagens principais por dentro e por fora, o animador se arrisca em recheá-los de dor e dúvida, sem uma superfície fofinha e cativante.
Com o palco montado, inicia-se uma longa e verborrágica discussão filosófica sobre religião, vida em sociedade, sexo, amor, confiança e, principalmente, a importância e o significado da amizade. As cartas também refletem a caótica estrutura racional de remetente e destinatário, sempre com um monotonia instigante. Idéias brilhantes ("se ao menos houvesse uma equação matemática para o amor") surgem e são abandonadas em função de outra melhor, mais inocente ou simplesmente irrelevante.
Apesar de tratar de um tema quase extinto, os "pen pals", amigos de correspondência, algo bastante comum poucas décadas atrás, Mary & Max encontra reflexo curioso na modernidade de redes sociais e programas de mensagens instantâneas. Memórias de amigos virtuais não se apagam mais queimando-se as cartas... mas nos blocks e deletes de perfil.
Toni Collette (Pequena Miss Sunshine) dubla Mary e Philip Seymour Hoffman (Capote) empresta uma irreconhecível voz a Max. O personagem, aliás, é do tipo que o ator oscarizado aprecia. Mas falar mais sobre ele arruinaria algumas surpresas. Fique com a certeza que os personagens podem ser de massinha, mas o suor e as lágrimas que eles vertem são assustadoramente reais e perturbadores.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Viajo porque te amo, volto se precisar

Acabei de assistir ao filme brasileiro "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo". Fiquei encantado, trata-se de um belo filme, poético e com uma fotografia de arrepiar... Vale conferir...
Segue um texto extraído do blog Mente Aberta da Revista Época




Viajo porque preciso, volto porque te amo,  não é um filme fácil. É, principalmente no início, um filme árido, um “torrão seco”, como diz o protagonista José Renato sobre o sertão nordestino que ele desbrava. Ele é um geólogo que viaja para avaliar o percurso do novo canal que será criado com a transposição do rio São Franciso, e que deixará submersos muitos dos lugares que ele visitou. É a partir dele que o filme se desenrola, e dele não vemos sequer um dedinho. Como José Renato está numa viagem a trabalho, documenta grande parte do que vê. O filme é isso: a viagem, a solidão, as cenas gravadas, a saudade da mulher… que, o espectador não demora a perceber, o abandonou. É um road movie (filme de estrada), mas inovador na forma e na estética.
José Renato está sofrendo de amor, “todo casamento tem um fim”, ele diz. “Não sei escrever cartas de amor. A verdade é que não aguento mesmo é ficar sozinho”, entrega, logo no começo. De uma narração dura e robótica, ele vai se deixando levar pela câmera, amolece e imprime a sua alma nos depoimentos. Aí, o filme passa a ficar mais ritmado. Ele corre atrás das cores e do que faz pulsar as cidades do sertão. Desvia seu roteiro, avança no prazo, vai para Juazeiro, Caruaru, para o colo de mulheres da vida, de mulheres que desejam uma “vida-lazer”. “Vida-lazer”, segundo Patrícia, uma garota de programa, é aquela em que você mora numa casa, com seu filho e seu homem. Ele agrada a mulher, ele está ali na hora em que ela precisar. A vida-lazer, o que não é comum para mulheres como Patrícia. José Renato, na verdade, viaja porque ama, e só voltará se precisar. Se o dever o chamar. Certamente não vai… Quanto mais a viagem se estende, mais ele prefere continuar. Foge, sozinho, e na solidão, de seus temores.
Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (Madame Satã), os diretores, queriam mostrar como era o sertão onde seus avós nasceram. Naturais do litoral nordestino, eles nunca haviam pisado na terra seca do agreste antes das filmagens, no fim dos anos 90. Ali, lançaram mão de técnicas de documentação muito pessoais, misturando imagens digitais, de película e polaroids. A princípio, o material foi concebido para um projeto do Itaú Cultural que, em 2004, se transformou no curta de documentário Sertão de Acrílico Azul Piscina, de 26 minutos. Como se não soubessem o que fazer com todo o material gravado, o guardaram para seguir projetos paralelos (Cinema…, de 2005, e Madame Satã, de 2002). A ideia de um longa, no entanto, perdurou.
Em 2008, os diretores se debruçaram sobre as cenas para amarrá-las com uma narrativa, um protagonista (Irandhir Santos, ator revelação de Besouro e Quincas Berro D’Água, que ainda não estreou), um roteiro. Não por coincidência, o espectador mais sensível consegue perceber que cenas e narrativa foram concebidas em tempos e lugares diferentes. As primeiras são o testemunho dos diretores – e aqui há, inclusive, entrevistas e cenas que tentam retratar a alma do fotografado. A segunda, uma forma de traduzir essas cenas em arte. “Imaginamos um filme que pudesse produzir a sensação de estarmos ali, que pudesse retratar o encantamento e, ao mesmo tempo, o estranhamento de mergulhar naquele lugar. Era importante um filme à flor da pele, pessoal, artesanal, improvisado…”, afirma os diretores. Nisso, não resta dúvida que tiveram sucesso.
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domingo, 20 de junho de 2010

Espiritualidade à mesa, em Estocolmo

"Morre o escritor português José Saramago, aos 87 anos... O mundo ficou mais cego..." (Carlos Vieira)


Texto de Leonardo Boff, extraído do Estadão.com.br e publicado no dia 19/06/2010
Saramago se considerava ateu, mas de um ateísmo muito particular. Entendia o "fator Deus" como veiculado pelas religiões e pelas Igrejas como forma de alienação das pessoas. Seu ateísmo era ético, negava aquele "Deus" que não produzia vida e não anunciava a libertação dos oprimidos. Essa compreensão pude discuti-la pessoalmente num encontro em 2001, na Suécia. Ele viera a Estocolmo para um encontro de todos os portadores do Nobel. Eu lá estava, pois fora indicado para o prêmio The Right Livelihood Award. Convidou a mim e à minha companheira Márcia para um jantar. Foi um festim de espiritualidade mais do que de literatura. Levei-lhe um livro de contos indígenas, O Casamento do Céu com a Terra, e para a sua esposa Pilar um outro, Espiritualidade: Caminho de Realização. Ele logo foi dizendo: "quero o livro de espiritualidade, pois pretendo me aprofundar neste tema." Falamos longamente sobre religião, Deus e espiritualidade. Negava a religião, mas não a espiritualidade como sentimento do mistério do mundo, da profundidade humana e do amor aos oprimidos. Mostrou sua admiração pela Teologia da Libertação por fazer do "fator Deus" uma força de superação da miséria humana. Fomos madrugada adentro, já em seu quarto de hotel, como se fôssemos velhos amigos. O e-mail a seguir revela a experiência espiritual que juntos vivenciamos: "Querido Leonardo, querida Márcia: para nós, o grande acontecimento em Estocolmo foi ter-vos conhecido. Não exageramos. (...) O tempo que estivemos juntos foi um banho para o espírito. Quem dera que em breve surja outra ocasião. Os anos são todos terríveis para aqueles para quem a vida é terrível. Às vezes as coisas correm melhor no mundo e isso leva-nos a pensar que estamos em paz, mas o mesmo não poderiam dizer os milhões de seres humanos cujas opiniões contam tão pouco que praticamente não se dá por elas. E se de alguma maneira chegam a manifestar-se, os modos de as silenciar, não faltam. O vosso trabalho cria e reforça consciências livres ou em processo de libertação. (...)". Ganhamos um amigo e a fé me diz que ele agora mergulhou naquele Mistério de amor que sempre buscou.
LEONARDO BOFF É TEÓLOGO E ESCRITOR 

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Um pouco de boa poesia!!!

Os ombros suportam o mundo - 1935


Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

"O Papa deveria renunciar"

Leonardo Boff

"O Papa deveria renunciar"
Teólogo diz que Bento XVI infantiliza os fiéis, é complacente com os pedófilos e fechou as portas para as outras religiões
Débora Crivellaro
CRISE
Para o ex-frei, a Igreja ainda funciona como na Idade Média
O brasileiro Leonardo Boff, 71 anos, e o alemão Joseph Ratzinger, 83, têm uma longa história em comum. Intelectuais de fôlego, respeitados fora dos muros da Igreja Católica, os teólogos se conhecem há mais de 40 anos, quando conviveram na universidade, em Munique, Alemanha. O atual pontífice era um cultuado professor, admirado pelo jovem franciscano que frequentava como ouvinte suas conferências, enquanto preparava a tese de doutoradoque contou com a ajuda providencial do alemão para ser publicada. Tempos depois, os dois trabalharam juntos em uma prestigiosa revista de teologia.
"A Igreja Católica é mais que Bento XVI. É também o papa
João XXIII, é dom Helder Câmara, é a Irmã Dulce"
Durou pouco, pois as contendas ideológicas provocaram a saída de Ratzinger. Mas o encontro mais marcante aconteceu em 1985, quando ambos estavam, definitivamente, em trincheiras opostas, dentro da mesma instituição. Boff já era o grande mentor por trás da Teologia da Libertação, movimento que interpreta o Evangelho à luz das questões sociais. E Ratzinger já havia se tornado o temido cardeal que punia severamente quem se atrevesse a mudar, uma vírgula que fosse, a interpretação oficial da “Bíblia”. O embate terminou com o silêncio forçado do franciscano e sua posterior saída da ordem, em 1992. Vinte e cinco anos depois desse encontro, casado com Márcia Miranda, padrasto de seis filhos e autor de mais de 60 livros traduzidos para diversas línguas, Boff analisa a Igreja da qual nunca se afastou e seu líder máximo. Que ele conhece como poucos.
"O cristianismo (dos padres cantores, como Marcelo Rossi)
não pode funcionar como um ansiolítico que nos alivia"
ISTOÉ -
A Igreja Católica está em crise?
LEONARDO BOFF -
A Igreja possui uma crise própria: até hoje ela não encontrou seu lugar no mundo moderno e  no mundo globalizado. Suas estruturas são medievais. Ela é a única monarquia absolutista do mundo, concentrando o poder em pouquíssimas mãos. Nesse sentido ela está em contradição com o sonho originário de Jesus que foi o de criar uma comunidade fraterna de iguais e sem nenhuma discriminação.
ISTOÉ -
Mas a Igreja Católica pode se modernizar sem perder a essência de seus princípios e, consequentemente, sua identidade?
LEONARDO BOFF -
A Igreja se engessou em suas doutrinas, em suas normas, em seus ritos que poucos entendem e num direito canônico escrito para legitimar desigualdades e conservadorismos. Os homens de hoje têm o direito de receber a mensagem de Jesus na linguagem de nossa cultura moderna, coisa que a Igreja não faz. Ela coloca sob suspeita e até persegue quem tenta fazer.
ISTOÉ -
O que o sr. acha que a Igreja Católica deveria fazer para sair dessa crise?
LEONARDO BOFF -
Ela deveria ser menos arrogante, deixando de se imaginar a exclusiva portadora dos meios de salvação, a única verdadeira. Ela se diz perita em humanidade, mas maltrata a muitos desta humanidade internamente e ofende a vários direitos humanos. Por isso que até hoje não subscreveu a Carta dos Direitos Humanos da ONU, sob o pretexto de que ela não faz nenhuma referência a Deus, e retirou seu apoio ao Unicef, porque ele aconselha o uso de preservativos para combater a Aids e fazer o planejamento familiar. Uma igreja que afirma constantemente que fora dela não há salvação, ela mesma precisa de salvação.
ISTOÉ -
O sr. acha que os escândalos de pedofilia contribuem para a debandada católica, com fiéis migrando, no Brasil, principalmente, para as igrejas evangélicas?
LEONARDO BOFF -
Muitos cristãos não aceitam ser infantilizados pela Igreja como se nada soubessem e tivessem que receber a comida na boca. Estes estão emigrando em massa. Mas é uma emigração interna. Continuam se sentindo dentro da Igreja, mas não identificados com as doutrinas deste papa, nem com o estilo com o qual ela se apresenta no mundo, com hábitos e símbolos palacianos que os tornam simplesmente ridículos. As igrejas evangélicas crescem porque a católica deixou um espaço vazio.
ISTOÉ -
Muitos vaticanistas dizem que Bento XVI pensa em termos de séculos e não está preocupado em conquistar mais fiéis. O sr. concorda?
LEONARDO BOFF -
Bento XVI é fiel a uma esdrúxula teologia que sempre defendeu e da qual eu ainda como estudante e ouvinte dele discordava. Ele é um especialista em Santo Agostinho, grande teólogo. Santo Agostinho partia do fato de que a humanidade é uma “massa condenada” pelo pecado original e pelos demais pecados. Cristo a redimiu. Criou um oásis onde só há salvação e graça. Esse oásis é a Igreja. Ocorre que esse oásis é uma fantasia. Ele é tão contaminado como qualquer ambiente, haja vista os pedófilos e outros escândalos financeiros.
ISTOÉ -
Como o sr. avalia o pontificado de Bento XVI?
LEONARDO BOFF -
Do ponto de vista da fé, este papa é um flagelo. Ele fechou a Igreja de tal forma  sobre si mesma que rompeu com mais de 50 anos de diálogo ecumênico, vive criticando a cultura moderna, desestimula qualquer pensamento criativo, mantendo-o sob suspeita. Todo papa tem a missão imposta por Jesus de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”. Esta missão, a meu ver, não está sendo cumprida.
ISTOÉ -
Por quê?
LEONARDO BOFF -
Bento XVI cometeu vários erros de governo com respeito aos muçulmanos, aos judeus, às mulheres e às religiões do mundo. Reintroduziu o latim nas missas em que se reza ainda pela conversão dos judeus, reconciliou-se com os mais duros seguidores de Lefebvre (Marcel Lefebvre arcebispo católico ultraconservador, que morreu em 1991), verdadeiros cismáticos. Enquanto trata a nós teólogos da libertação a bastonadas, trata os conservadores com mão de pelica. É um papa que não suscita entusiasmo. Mesmo assim, convivemos com ele, porque a Igreja é mais que Bento XVI. É também o papa João XXIII, é dom Helder Câmara, é a Irmã Dulce, a Irmã Doroty Stang, é dom Pedro Casaldáliga e tantos e tantas.
ISTOÉ -
O sr. acha que ele deveria renunciar?
LEONARDO BOFF -
O papa, para o bem dele e da Igreja, deveria renunciar. Devemos exercer a compaixão: ele é um homem doente, velho, com achaques próprios da idade e com dificuldades de administração, pois é mais professor que pastor. Em razão disso, faria bem se fosse para um convento rezar sua missa em latim, cantar seu canto gregoriano que tanto aprecia, rezar pela humanidade sofredora, especialmente pelas vítimas da pedofilia, e se preparar para o grande encontro com o Senhor da Igreja e da história. E pedir misericórdia divina.
ISTOÉ -
Como foi a convivência dos srs. no mesmo ambiente acadêmico?
LEONARDO BOFF -
Ouvi-o muitas vezes, pois era um apreciado conferencista. Teve um papel importante na publicação de minha tese doutoral, que, por seu tamanho – mais de 500 páginas –, encontrava dificuldades junto às editoras. Ele encontrou uma, arranjou-me boa parte do dinheiro para a impressão em forma de livro. Depois fomos colegas nas reuniões anuais da revista internacional “Concilium”. Mas ele se desentendeu com a linha da revista e criou uma outra, a “Communio”, em franca oposição à “Concilium”.
ISTOÉ -
Anos depois, em 1985, já na  Congregação para a Doutrina da Fé, ele o puniu. Como foi esse encontro?
LEONARDO BOFF -
Ele me fez sentar na cadeira onde sentou Galileo Galilei,  no famoso edifício, ao lado do Vaticano, do Santo Ofício e da antiga Santa Inquisição. Foi meu “inquisidor”, interrogando-me por mais de três horas sobre o livro “Igreja: Carisma e Poder”, que me custou o “silêncio obsequioso”, a deposição de cátedra e a proibição de publicar qualquer coisa. Mas devo dizer que é uma pessoa finíssima, extremamente elegante na relação, mas determinado em suas opiniões. E muito, mas muito, tímido.
ISTOÉ -
O sr. é a favor da ordenação de mulheres pela Igreja Católica?
LEONARDO BOFF -
Não há nenhuma doutrina ou dogma que impeça as mulheres de serem ordenadas e até de serem bispos. O patriarcalismo intrínseco à instituição, governada só por homens e celibatários, faz com que não se tenha apreço pelas mulheres nem se reconheça o imenso trabalho que fazem dentro da Igreja. E, no entanto, devemos reconhecer que as mulheres, nos evangelhos, nunca traíram Jesus, como fez Pedro, foram as primeiras testemunhas do fato maior para a fé cristã, que é a ressurreição, e também foram discípulas.
ISTOÉ -
O sr. também é a favor do fim da obrigatoriedade do celibato?
LEONARDO BOFF -
O primeiro papa, Pedro, era casado. Aceito o celibato livremente assumido pelos que se propõem a servir às comunidades cristãs. Seria tão enriquecedor para a própria Igreja se houvesse, como há em outras igrejas, padres casados e padres celibatários. Mas o celibato desempenha uma função importante no estilo autoritário da instituição: ela pode dispor totalmente dos celibatários, sem laços com a família, transferi-los para onde quiser e ver-se livre de problemas de herança.
ISTOÉ -
O sr. acha que os casos de pedofilia cometidos por padres têm relação com a obrigatoriedade da castidade?
LEONARDO BOFF -
Entre a pedofilia e o celibato há um denominador comum que é a ­sexualidade. A educação sexual que os candidatos ao sacerdócio recebem é carregada de suspeitas e distorções e é feita longe do contato com as mulheres. Hoje sabemos que o homem amadurece sob o olhar da mulher e vice-versa. Quando se tolhe um desses polos da equação, pode surgir o recalque, a sublimação e as eventuais distorções. A pedofilia é uma distorção de uma educação sexual mal realizada. Ademais, a pedofilia é um pecado e um delito.
ISTOÉ -
O sr. pode explicar melhor?
LEONARDO BOFF -
A Igreja só via o pecado que podia ser perdoado, e tudo terminava aí. Não via as vítimas, que eram crianças e adolescentes que sofreram violência. Ela não via o delito que deve ser levado aos tribunais para ser julgado e receber a punição adequada. Este lado sempre foi mantido em sigilo, para não prejudicar a imagem da Igreja. Isso configura cumplicidade no crime. Graças a Deus, o papa agora acordou, se redimiu, reconheceu o delito e exige a denúncia dos pedófilos aos tribunais civis.
ISTOÉ -
Quando o sr. era frei franciscano, soube de casos de abuso sexual?
LEONARDO BOFF -
Nunca soube de nada.
ISTOÉ -
O que o sr. acha da Renovação Carismática Católica?
LEONARDO BOFF -
É um movimento forte, que trouxe muitos elementos positivos, pois tirou o monopólio dos padres. Agora o leigo fala e inventa orações, coisa que não ocorria. Deu certa leveza ao cristianismo, muito centrado na cruz e na paixão e menos na alegria e na celebração. Mas, a meu ver, ela ficou a meio caminho.
ISTOÉ -
Por quê?
LEONARDO BOFF -
Não se pode pensar no cristianismo sem justiça social e preocupação com os pobres. Todo carismatismo corre o risco de alienação. Eles se perdem no louvor, no cantar e dançar.
ISTOÉ -
E como o sr. avalia os padres cantores, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo?
LEONARDO BOFF -
Eles produzem um tipo de evangelização adequada ao que é dominante hoje, que é o mercado. Mas com as limitações que o mercado impõe, tenham eles consciência disso ou não. É sempre problemático, do ponto de vista teológico, transformar a mensagem cristã numa mercadoria de fácil consumo e de pacificação das consciências atribuladas. Noto que as grandes questões sociais estão ausentes em seus discursos e cânticos.
ISTOÉ -
Por quê?
LEONARDO BOFF -
Eles falam sobre questões subjetivas. O cristianismo não pode funcionar como um ansiolítico que nos alivia, mas deve falar às consciências para que as pessoas tomem decisões que vão na direção do outro. Para mim, a mensagem cristã não significa buscar um porto seguro onde ancoramos para repousar. Mas é um chamado para irmos ao mar alto, para enfrentar as ondas perigosas. E não pedimos a Deus que nos livre das ondas, mas que nos força e coragem para enfrentá-las.
ISTOÉ -
O sr. ainda é católico?
LEONARDO BOFF -
Sou católico apostólico franciscano. Acho que São Francisco foi o último cristão verdadeiro e talvez o primeiro depois do Único, que foi Jesus Cristo. O franciscanismo me inspira mais do que o romanismo porque o romano é apenas uma qualificação geográfica