segunda-feira, 21 de junho de 2010

Viajo porque te amo, volto se precisar

Acabei de assistir ao filme brasileiro "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo". Fiquei encantado, trata-se de um belo filme, poético e com uma fotografia de arrepiar... Vale conferir...
Segue um texto extraído do blog Mente Aberta da Revista Época




Viajo porque preciso, volto porque te amo,  não é um filme fácil. É, principalmente no início, um filme árido, um “torrão seco”, como diz o protagonista José Renato sobre o sertão nordestino que ele desbrava. Ele é um geólogo que viaja para avaliar o percurso do novo canal que será criado com a transposição do rio São Franciso, e que deixará submersos muitos dos lugares que ele visitou. É a partir dele que o filme se desenrola, e dele não vemos sequer um dedinho. Como José Renato está numa viagem a trabalho, documenta grande parte do que vê. O filme é isso: a viagem, a solidão, as cenas gravadas, a saudade da mulher… que, o espectador não demora a perceber, o abandonou. É um road movie (filme de estrada), mas inovador na forma e na estética.
José Renato está sofrendo de amor, “todo casamento tem um fim”, ele diz. “Não sei escrever cartas de amor. A verdade é que não aguento mesmo é ficar sozinho”, entrega, logo no começo. De uma narração dura e robótica, ele vai se deixando levar pela câmera, amolece e imprime a sua alma nos depoimentos. Aí, o filme passa a ficar mais ritmado. Ele corre atrás das cores e do que faz pulsar as cidades do sertão. Desvia seu roteiro, avança no prazo, vai para Juazeiro, Caruaru, para o colo de mulheres da vida, de mulheres que desejam uma “vida-lazer”. “Vida-lazer”, segundo Patrícia, uma garota de programa, é aquela em que você mora numa casa, com seu filho e seu homem. Ele agrada a mulher, ele está ali na hora em que ela precisar. A vida-lazer, o que não é comum para mulheres como Patrícia. José Renato, na verdade, viaja porque ama, e só voltará se precisar. Se o dever o chamar. Certamente não vai… Quanto mais a viagem se estende, mais ele prefere continuar. Foge, sozinho, e na solidão, de seus temores.
Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (Madame Satã), os diretores, queriam mostrar como era o sertão onde seus avós nasceram. Naturais do litoral nordestino, eles nunca haviam pisado na terra seca do agreste antes das filmagens, no fim dos anos 90. Ali, lançaram mão de técnicas de documentação muito pessoais, misturando imagens digitais, de película e polaroids. A princípio, o material foi concebido para um projeto do Itaú Cultural que, em 2004, se transformou no curta de documentário Sertão de Acrílico Azul Piscina, de 26 minutos. Como se não soubessem o que fazer com todo o material gravado, o guardaram para seguir projetos paralelos (Cinema…, de 2005, e Madame Satã, de 2002). A ideia de um longa, no entanto, perdurou.
Em 2008, os diretores se debruçaram sobre as cenas para amarrá-las com uma narrativa, um protagonista (Irandhir Santos, ator revelação de Besouro e Quincas Berro D’Água, que ainda não estreou), um roteiro. Não por coincidência, o espectador mais sensível consegue perceber que cenas e narrativa foram concebidas em tempos e lugares diferentes. As primeiras são o testemunho dos diretores – e aqui há, inclusive, entrevistas e cenas que tentam retratar a alma do fotografado. A segunda, uma forma de traduzir essas cenas em arte. “Imaginamos um filme que pudesse produzir a sensação de estarmos ali, que pudesse retratar o encantamento e, ao mesmo tempo, o estranhamento de mergulhar naquele lugar. Era importante um filme à flor da pele, pessoal, artesanal, improvisado…”, afirma os diretores. Nisso, não resta dúvida que tiveram sucesso.
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Um comentário:

Cristiane Alberto disse...

Fui ver, é realmente um belo filme. E pelo que li da produção, mais uma vez fica evidente que com criatividade e talento, tudo pode virar arte. Lembrei agora, da cena da senhorinha, cujo ofício é transformar 'esponja' em rosas.

Gostei muito! Valeu a indicação.