sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O mau uso político da religiosidade popular - Leonardo Boff

A religiosidade popular está hoje em alta pois foi um dos eixos fundamentais da campanha eleitoral, especialmente em sua vertente fundamenalista. Foi induzida pela oposição e por uma ala conservadora de bispos de São Paulo, à revelia da CNBB, acolitada depois por pastores evangélicos. Sem projeto político alternativo, Serra descobriu que podia chegar ao povo, apelando para temas emocionais que afetam à sensível alma popular, como o aborto e a união civil de homosexuais, temas que exigem ampla discussão na sociedade, fora da corrida eleitoral. Política feita nesta base é sempre ruim porque faz esquecer o principal: o Brasil e seu povo, além de suscitar ódios e difamações que vão contra a natureza da própria religião e que não pertence à tradição brasileira.
Historicamente a religiosidade popular sofreu todo tipo de interpretação: como forma decadente do cristianismo oficial; os filhos da primeira ilustração (Voltaire e outros) a viam como reminiscência anacrônica de uma visão mágica do mundo; os filhos da segunda ilustração (Marx e companhia) a consideravam como falsa consciência, ópio endormecedor e grito ineficaz do oprimido; neodarwinistas como Dawkins a lêem como um mal para a humanidade a ser extirpado.
Estas leituras são canhestras pois não fazem jutiça ao fenômeno religioso em si mesmo. O correto é tomar a religiosidade por aquilo que ela é: como vivência concreta da religião na sua expressão popular. Toda religião significa a roupagem sócio-cultural de uma fé, de um encontro com Deus. No interior da religião se articulam os grandes temas que movem as buscas humanas: que sentido tem a vida, a dor, a morte e o que podemos esperar depois desta cansada existência. Fala do destino das pessoas que depende dos comportamentos vividos neste mundo. Seu objetivo é evocar, alimentar e animar a chama sagrada do espírito que arde dentro das pessoas através do amor, da compaixão, do perdão e da escuta do grito do oprimido. E não deixa de fora a questão do sentido terminal do universo. Portanto, não é pouca coisa que está em jogo com a religião e a religiosidade. Ela existe em razão destas dimensões. Um uso que não respeite esta sua natureza, significa manipulação desrespeitosa e secularista, como ocorreu nas atuais eleições.
Não obstante tudo isso, importa tomar em conta as instituções religiosas que possuem poder e um peso social que desborda do campo religioso. Este peso pode ser instrumentalizado em diferentes direções: para evitar a discussão de temas fortes como a injustiça social e a necessidade de políticas públicas orientadas para quem mais precisa e outros temas relevantes.
É nesse campo que se verifica a disputa pela força do capital religioso. E ela ocorreu de forma feroz nestas eleições. Curiosamente o candidato da oposição, se transformou num pastor ao fazer publicar num jornal que eu vi:”Jesus é verdade e justiça”, com a assinatura de próprio punho, como se não nos bastassem os Evangelistas para nos garantirem esta verdade. O sentido é insinuar que Jesus está do lado do candidato, enquanto o outro é satanizado e feito vítima de ódio e rejeição. Eis uma forma sutil de manipulação religiosa.
Um católico fervoroso me escreveu que queria “me retalhar em mil pedaços, queimá-los, jogá-los no fundo do poço e enviar a minha alma para os quintos dos infernos”. Tudo isso em nome daquele que mandou que amássemos até os inimigos. O povo brasileiro não pensa assim porque é tolerante e respeitador das diferenças porque crê que no caminho para Deus podemos sempre somar e nos dar as mãos.
Só não desnatura a religiosidade aquela prática que potencia a capacidade de amor, que nos ajuda na auto-contenção da dimensão de sombras, nos desperta para os melhores caminhos que realizam a justiça para todos, garante os direitos dos pobres e nos torna não apenas mais religiosos, mas fundamentalmente mais humanos. A quem ajua a difamação e a mentira? Deus as abomina.



Leonardo Boff
Teólogo





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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Que Deus e que religião?

ADITAL - Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

www.adital.com.br

18.10.10 - BRASIL
Que Deus e que religião?

Marcelo Barros *
Adital - É a pergunta e o desafio lançado por Dom Pedro Casaldáliga na costumeira e sempre bela carta circular que abre a Agenda Latino-americana mundial 2011, que a Comissão Justiça e Paz da Família Dominicana apresenta nesta semana em Goiânia, como lançamento nacional da Agenda do próximo ano.
Quando a minha geração era criança, circulavam diversos "almanaques do ano" que nos davam informações sobre as datas em que ocorrerão as fases da lua, sobre santos e santas de cada dia, sobre receitas de cozinha e remédios caseiros. Era muito apreciado o Almanaque do Biotônico Fontoura, remédio que toda criança tomava para crescer sadia. As mães de famílias católicas apreciavam a Folha do Coração de Jesus. Hoje, mesmo em tempos de internet e de comunicação virtual, este tipo de livro continua apreciado. A cada ano, vários grupos e organizações editam almanaques e agendas que ajudam as pessoas a se situar no tempo e no espaço. Em toda a América Latina e em algumas nações da Europa, nos anos mais recentes, a Agenda Latino-americana mundial tem se constituído como um livro de cabeceira e companheiro de viagem para muitas peço as e grupos que desejam um mundo novo possível e por isso trabalham.
Quando se fala em agenda, logo as pessoas pensam em cronograma de atividades a ser programada. Em 2006, em uma reunião em Caracas, eu estava junto com o amigo José Maria Vigil, teólogo encarregado da organização e redação final deste livro. Alguém nos perguntou o que fazíamos na vida. Ele respondeu: "Eu faço a agenda latino-americana". Algumas pessoas, habituadas a que agendas de presidentes e de pessoas importantes são feitas por ministros e chefes de gabinete, o olharam espantadas, querendo saber de quem ele fazia a agenda. E ele falava do livro Agenda Latino-americana. Só pouco a pouco, no meio da conversa, o equívoco se esclareceu. As pessoas descobriram que o tal livro contém a programação de eventos e memórias que ocorrem no continente, mas é mais do que isso. Propõe uma reflexão de fundo que serve de tema para cada ano e que vári os autores e autoras discorrem na linha da metodologia do "ver, julgar e agir".
Talvez muita gente se espante de que a Agenda Latino-americana mundial de 2011 tenha escolhido como tema a questão "Que Deus, que religião?". Logo na carta introdutória, Dom Pedro Casaldáliga mostra que este assunto não tem sua importância restrita a religiosos, mas, ao contrário, hoje, é fundamental para a paz e a construção de um novo mundo possível. De fato, no passado, uma determinada visão sobre religião e sobre Deus levou povos a guerras e perseguições. O próprio Cristianismo compactuou com regimes totalitários e foi acusado de ser conivente com o sistema social e econômico responsável pela destruição ecológica. Em seus últimos anos de vida, um bispo santo como Dom Hélder Câmara se lamentava de que os governos e Estados que mais se destacaram como escravagistas e responsáveis pela injustiça social no mundo são justamente aqueles que mais se vangloriam de ser cristãos. Até no dólar se usa o nome de Deus como para justificar a riqueza de uns e a carência injusta sofrida por multidões.
Ao percorrer esta bela enciclopédia temática que é a Agenda Latino-americana de 2011, uma conclusão que se pode tirar é a mesma que, no tempo do nazismo, fazia o filósofo judeu Martin Buber afirmar a seus irmãos judeus no cativeiro: "Pelo fato de que muitos crimes e iniqüidades têm sido cometidos em nome de Deus, é preciso não deixarmos este nome nas mãos dos opressores. É preciso resgatar este nome como amor solidário, presente em todo ato de bondade e em todo riso de criança". É isso que a Agenda Latino-americana mundial de 2011 consegue fazer e propor para o mundo de hoje.
* Monge beneditino e escritor

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um tempo para ganhar tempo!!!

Um tempo para ganhar tempo!!!
Por Carlos Vieira


Embarquei no ultimo sábado (02/10) para São Paulo, mas especificamente para a cidade de São Bernardo do Campo com o objetivo de avançar no processo de escrita da minha dissertação de mestrado em Ciências da Religião, através de um convênio entre a Universidade Católica de Pernambuco e a Universidade Metodista de São Paulo. O curioso é que a minha pesquisa começou durante vôo, que por sinal foi longo o bastante para não se perder tempo. Durante a viagem, comecei a ler uma revista que estampava como matéria de capa uma entrevista com o ator Pernambucano Irandhir Santos, até então desconhecido para mim, ao avançar com a leitura da entrevista eu tive a grata surpresa de saber que Irandhir foi o protagonista do filme “viajo porque preciso, volto porque te amo”, um dos melhores filmes que já vi. Um filme apaixonante, poético e deixa qualquer um em êxtase. Durante o longa Irandhir vive o papel do geólogo José Renato, apaixonado pela esposa, que precisa fazer sozinho uma longa viagem pelo sertão nordestino. Longe dela, ele terá que realizar uma pesquisa de campo para definir o possível percurso de um canal, que irá amenizar o problema da seca na região. Apesar de a construção ser um alívio para muitas populações, pode ser um grande problema para aqueles com quem Renato cruza, já que provavelmente a região será alagada. José Renato, não aparece em cena; o espectador apenas ouve a sua voz. Avaliando o terreno, ele percebe na seca e na pobreza daquelas pessoas uma sensação parecida com a que está tendo. Apesar de não ter dificuldades com a falta de recursos, José Renato sente um grande vazio, pela distância da mulher que ama. À medida em que a viagem avança, as saudades ficam cada vez maiores, e a distância física dela parece ser o menor dos problemas entre os dois. Selecionado para o Festival de Veneza, onde fez sua premiére mundial, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é uma obra experimental realizada pelos cineastas Marcelo Gomes, de Cinema, Aspirinas e Urubus, e Karim Aïnouz, de Madame Satã e O Céu de Suely. Para o longa, os diretores usaram imagens não utilizadas em seus filmes anteriores, incluindo o documentário Sertão Acrílico Azul Piscina, que também filmaram em conjunto. O ator Irandhir Santos, que vive José Renato no longa, não aparece em cena; o espectador apenas ouve a sua voz.
Agora Irandhir está mais uma vez em cartaz com o filme Tropa de Elite 2 de José Padilha, fazendo o papel de Diogo Fraga, um defensor dos direitos humanos que, segundo o ator, “diz não à política de segurança pública, uma política de repressão contra os pobres, os moradores dos morros”. Em outras palavras, ele bate de frente com o ex-capitão, agora coronel Nascimento (novamente interpretado por Wagner Moura)? “Ele peita qualquer personagem que seja a favor dessa truculência, desse domínio vigente. Qualquer um mesmo, até o Nascimento, se ele foi a favor dessa política”, disse Santos ao UOL Cinema. O personagem foi um convite de Padilha, que também tinha ouvido só elogios sobre o ator vindos do diretor de fotografia Lula Carvalho e da respeitada preparadora de elenco Fátima Toledo, que havia trabalhado com Santos em “Besouro” (2009) e em “Quincas Berro D’Água”. Fraga, segundo o ator, foi inspirado no deputado estadual carioca Marcelo Freixo (PSOL). “Ele e a Fátima me ajudaram muito a construir esse personagem. Mesmo antes de começar a preparação, fiz pesquisas sobre o assunto e o nome dele sempre aparecia ligado à defesa dos direitos humanos no Rio. Quando fiquei sabendo que o Diogo era baseado nele, me emocionei”, admite. O político, inclusive, não apenas ajudou na preparação para o personagem, como também visitou o set diversas vezes e acabou fazendo uma ponta no filme, na plateia durante um debate.
Santos, que no longa contracena bastante com Wagner Moura, Maria Ribeiro e Pedro Van Held, disse que só percebeu a dimensão do filme quando as filmagens encerraram e ele voltou para sua casa, em Recife, e todo mundo começou a perguntar como seria “Tropa de Elite 2”. “Isso nunca tinha me acontecido antes. Todo mundo está curioso para saber como será. O que eu posso adiantar é que, com certeza, o filme vai levantar muita discussão, pois esse é o ponto forte do cinema do Padilha, trazer à tona questões importantes que precisam ser discutidas”.
Lições que a gente veio tirando, já no avião, antes de pisar em São Paulo: os nordestinos e as suas coisas e temas são mais importantes do que a gente imagina (é preciso viajar pra descobrir!). E mais: quando a gente tem o que dizer, não precisa nem aparecer muito... acaba sendo reconhecido. É assim também com as coisas sagradas, que se impõem sempre de novo, em todo canto. Como “o coração tem suas razões, que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal), vim pesquisar sobre o lugar da religião num mundo pós-moderno e já percebi que “o essencial é invisível aos olhos” (Saint Exupéry).

Vim para São Paulo porque preciso e voltarei para Recife porque a amo...

São Bernardo do Campo / SP
06/10/2010

Referências: