terça-feira, 29 de março de 2011

Cristãos da America Latina em LUTO: Morre José Comblin

Com informações do Instituto Humanitas Unisinos e do Boletim da Assecom Unicap

Morreu na madrugada de domingo (27), aos 88 anos, o padre belga José Comblin, um dos mais importantes representantes da Teologia da Libertação.  Ele estava hospedado na comunidade Recanto da Transfiguração, em Simões Filho (BA), em tratamento de saúde, quando sofreu um ataque cardíaco. Foi encontrado morto, sentado, em seu quarto, quando era esperado para a oração da manhã e não apareceu na capela. Ele tinha problemas cardíacos e usava marcapasso. Apesar da doença, parecia bem disposto e estava trabalhando.

Padre Comblin pediu para ser enterrado em Solânea, na Paraíba, o que deve ocorrer nesta terça-feira (29), às 15h. Nesse município está o Santuário de Santa Fé e o túmulo de outro padre santo, Ibiapina, que Comblin tinha como exemplo. No próximo domingo (3), às 11h, será celebrada na Igreja das Fronteiras no Recife, onde viveu Dom Helder, uma missa especial em memória do grande profeta que foi José Comblin. Será uma iniciativa conjunta do Instituto Dom Helder Câmara e do Grupo de Leigos Igreja Nova, com a participação da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Desde 2009 Comblin vinha doando a sua biblioteca de 9 mil livros à Universidade Católica de Pernambuco, por considerar a Unicap parceira capaz de ajudar o povo a ter uma fé mais esclarecida. No próximo dia 25 de abril, às 14h, no bloco G4 da Católica, o pastor protestante Paulo César Pereira vai defender a sua dissertação no Mestrado em Ciências da Religião da Unicap, sobre a contribuição da teologia de Comblin para a evangelização das cidades. A última vez em que Comblin esteve na Católica foi em agosto de 2009 para participar do Café Teológico sobre “Perspectivas das Igrejas e das Teologias”.

Padre Comblin nasceu no dia 22 de março de 1923, na Bélgica. Desde 1958 trabalhava no Brasil, especialmente em Pernambuco, na Paraíba e na Bahia. Ele veio para o Brasil em 1958, atendendo a apelo do papa Pio XII, que no documento Fidei donum (O Dom da Fé) pedia missionários voluntários para regiões com falta de sacerdotes. Depois de trabalhar em Campinas e, em seguida, passar uma temporada no Chile, veio para Pernambuco, em 1964, quando d. Helder Câmara foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Perseguido pelo regime militar, foi detido e deportado, em 1972, ao desembarcar no aeroporto de volta de uma viagem à Europa.

Em Campinas, São Paulo, lecionou Química e Física para o curso colegial. Posteriormente, foi assessor da Juventude Operária Católica, tornando-se professor da Escola Teológica dos Dominicanos em São Paulo e tendo como alunos Frei Betto e Frei Tito. Aí permaneceu até 1962. A seguir lecionou na Faculdade de Teologia do Chile até 1965. A convite de dom Helder Câmara, veio para o Recife, onde foi professor do Instituto de Teologia - ITER, tendo oferecido cursos e assessorias também no Equador e na Bélgica. A partir de 1969 esteve à frente de seminários rurais em Pernambuco e na Paraíba.

A metodologia utilizada para os seminários era adaptada ao ambiente social dos seminaristas e essa experiência lançou as bases para a sua Teologia da Enxada. Suas ideias o colocaram sob suspeita do regime militar. Foi expulso do Brasil em 1971. Exilou-se no Chile durante 8 anos, onde também esteve à frente da criação de um seminário em Talca, em 1978. No seu livro A ideologia da Segurança Nacional: o poder militar na América Latina, publicado em 1977, destrinchou a doutrina que servia de base para os regimes militares na América Latina. Foi expulso por Pinochet em 1980.

Desde que voltou ao Brasil, radicou-se em Serra Redonda e João Pessoa (Paraíba), e atualmente estava morando na cidade de Barra, no interior da Bahia.  Sua dedicação maior sempre foi à formação de animadores de comunidades eclesiais de base, além de escrever muitos e importantes livros.

José Comblin esteve na origem da criação dos Missionários do Campo (1981), das Missionárias do Meio Popular (1986), dos Missionários formados em Juazeiro da Bahia (1989), na Paraíba (1994) e em Tocantins (1997).

sexta-feira, 25 de março de 2011

Estudo indica que religião pode acabar em 9 países ricos

DA BBC BRASIL

Dados de censos colhidos desde o século 19 indicam que a religião pode ser extinta em nove nações ricas que foram analisadas em um estudo científico.
A pesquisa identificou uma tendência de aumento no número de pessoas que afirmam não ter religião na Austrália, Áustria, Canadá, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia, Suíça e República Tcheca --o país com o índice mais elevado, com 60%.
Usando um modelo de progressão matemática, o levantamento --divulgado durante um encontro da American Physical Society-- mostra que as pessoas que seguem alguma religião vão praticamente deixar de existir nestes países.
Na Holanda, por exemplo, 70% dos holandeses não terão religião alguma até 2050. Hoje, esse grupo é de 40% da população.
"Em muitas democracias seculares modernas, há uma tendência maior de as pessoas se identificarem como sem uma religião", afirma Richard Wiener, que trabalha em um centro de pesquisa em ciência avançada, subordinado ao departamento de física da Universidade do Arizona.
A pesquisa seguiu um modelo de dinâmica não-linear que leva em conta fatores sociais e a influência que exercem em uma pessoa a fazer parte de um grupo não-religioso.
Os parâmetros se mostraram semelhantes em vários países pesquisados, indicando que a religião está a caminho da extinção nessas nações.


Pesquise mais sobre o assunto:


quinta-feira, 17 de março de 2011

CUIDADO COM A MAGIA NEGRA

Matéria extraída do blog do mestrado em Ciências da Religião da Unicap


Por Gilbraz Aragão
Coordenador do Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP


Está nos jornais de hoje (veja aqui, por exemplo) que a “polícia prendeu dois homens e uma mulher que esquartejaram professora em ritual de magia negra”. Pois bem, resumindo, a professora Maria Iracema de Morais foi assassinada em suposto ritual de magia negra. Os acusados são o pai de santo Paulo Vitor de Araújo, a mãe de santo Elizabete de Lima e o filho de santo Ailton Félix . De acordo com a polícia, Paulo Vitor teria injetado uma substância na professora durante um ritual no terreiro Axé Ilê de Maria Padilha, no bairro do Cordeiro, no Recife. Adormecida, Maria Iracema foi levada até Surubim, onde foi queimada três vezes e esquartejada. Seus restos mortais foram jogados em um açude. A faca utilizada no crime foi partida em três pedaços, que foram jogados no mesmo local. Pronto: é Magia! E da Negra! Que falta faz um cursinho de história das religiões e de cultura religiosa pra essa gente...

Pois quem estuda um pouco os fenômenos religiosos sabe que a interpretação dada ao fato está equivocada. Não é a primeira vez que a polícia e a imprensa, no Recife e alhures, atribuem assassinatos macabros a “rituais de Magia Negra”. Se os próprios assassinos explicam-se assim, estão abusando da religiosidade: Magia Negra (ou Satanismo) é uma tradição espiritual criada pelos gringos nos Estados Unidos, cujos ritos (que não incluem mortes) dificilmente estariam sendo praticados na periferia da nossa cidade. Se os policiais e jornalistas, por sua vez, associam nomes africanos e títulos de terreiros afro-brasileiros com a Magia Negra, eles são ignorantes e/ou colaboram para reforçar a secular criminalização do Xangô-Candomblé ou da nossa Umbanda e Jurema, como coisas ruins e perversas: saibam que a religião dos negros não mata gente! Os Nagô e Bantu na África, que legaram a matriz da religiosidade negro-brasileira, sacrificam animais para os espíritos da natureza. Na África não se matava mais gente para as divindades do que entre os seus avós de olhos azuis lá na Europa, ou os nossos antepassados astecas aqui na América - mas trouxemos os negros como escravos, para morrerem de trabalhar, e ainda acusamos os seus remanescentes de possuírem uma cultura assassina: piedade!

Dito isso, vamos desmistificar também a tal Magia Negra (que não é a religião dos negros, pelo amor de Deus, mas de loiros!). Primeiro, esse Culto do Diabo não deve confundir-se com a Wicca ou qualquer outra forma de paganismo (em 2007 a imprensa do Recife misturou bruxaria e satanismo no estupro e assassinato de uma menina, veja aqui) . Os pagãos ou neopagãos praticam uma religião natural em que não participa a figura de Satã, que é bíblica. Depois, em verdade o Satanismo começou como uma crítica “contra-cultural” à doutrina, simbolismo e prática do cristianismo, cuja civilização ele acusa de corrupta e hipócrita - e por isso recorre ao símbolo negativo dos cristãos como seu ícone de sabedoria (“a Chama Negra”), buscando inspiração na divindade Set (arquétipo da rebeldia provocadora, que a bíblia associa ao mal, como Satã). Trata-se, assim, do avesso simbólico do "american way of life". Há jovens rebeldes que utilizam elementos generalistas do Satanismo, através da imagética gótica ou da cultura musical do rock (como o simbolismo do crucifixo invertido), para manifestar a sua oposição à sociedade cristã ou mesmo justificar o seu comportamento antissocial (em 2008 um rapaz matou o colega por ciúmes e se aventou um pacto satânico, veja aqui).

Porém, o Satanismo contemporâneo tem mesmo a ver é com a Igreja de Satã, de Anton Szandor LaVey (falecido em 1997), que no dia 30 de abril de 1966, na Califórnia, declarou-se o “papa negro” e anunciou a Era de Satã. Em suas “cavernas”, realizava casamentos satânicos para celebridades e batizados satânicos de crianças. LaVey escreveu a Bíblia Satânica (1969) e Os Rituais Satânicos (1972). Critica o cristianismo por renegar os apetites “animais” da humanidade e estimula o “darwinismo social”, a subjugação dos fracos. Uma apostasia dessa Igreja, em 1975, por Michael Aquino, oficial do exército norte-americano, fundou o rival Templo de Set: insiste em que o intelecto interrogador dos humanos não resulta da simples evolução animal, mas é dádiva de Set à humanidade. O Templo de Set, numa via espiritual de estilo iniciático e gnóstico, procura exercitar esse dom, lançando ceticismo à sabedoria das religiões instituídas. Em seus “pilares” ou igrejas, atribui especial importância à magia ritual e cerimonial, pois, como explicado no livro de Aquino, Magia Negra em Teoria e Prática (1992), ela aumenta o poder subjetivo e potencia a nossa vontade sobre o universo.

Uma coisa é a gente não concordar com esse caminho de Magia Negra ou Culto ao Diabo, mas daí a "demonizar" seus seguidores e associar-lhes todos os crimes cometidos em recintos religiosos; daí, mais ainda, a vincular esses "crimes da Magia Negra" (sem lógica que justifique) aos terreiros afro-negro-brasileiros, é uma ruindade - ingênua ou maliciosa  - de "almas sebosas" não tão alvas quanto se imaginam. Então, professores, jornalistas, delegados (e assassinos também!), vamos ter um pouco mais de cuidado com a Magia Negra. Não cuidado no sentido do medo e da execração, mas do respeito e da consideração por uma tradição espiritual que compõe o patrimônio imaterial da humanidade. Religião, como toda experiência de conhecimento humano, tem sempre um lado sombrio na sua tentativa de nomificar o cosmos e organizar a vida - e sacrifícios, inclusive humanos, faziam e fazem parte do seu repertório. Mas a Magia Negra é algo mais sério e mesmo sublime do que imagina a vã criminologia popular. E se "ritual de magia negra" é uma referência atravessada aos nossos xangôs, então saibam que não é só um rito não, tem também mito e interdito: é uma religião completa, com a mesma dignidade - e limites - que as outras. Portanto, por obséquio, parem de usar “Magia Negra” para nomear a maldade e a safadeza do comezinho ritual humano de sacrificar o próximo! Pois isso se faz, prática ou simbolicamente, com obssessão "religiosa" até, em altares de todas as cores, denominações e repartições. Ou não é?!




Para saber mais: 
A violência e o sagrado, de René Girard, Editora Paz e Terra, 2008.
Coisas ocultas desde a fundação do mundo, de René Girard, Editora Paz e Terra, 2009.
Enciclopédia das Novas Religiões, de Christopher Partridge, Editora Verbo, 2006.
O altar supremo: uma história do sacrifício humano, de Patrick Tierney, Editora Bertrand Brasil, 1993.


Veja também no blog:
Ritual do exorcismo: sobre o filme que está nos cinemas!
História da África: coleção da Unesco para você ler!
Diabos...: palestra (em francês) com o historiador Jean Delumeau!

Fórum Inter-religioso da UNICAP debate sobre a fundação do “Espaço das Religiões”

Desde 2007 nós criamos na UNICAP uma série de encontros mensais com animadores das tradições religiosas da região, para conhecimento mútuo, exercício de tolerância cultural e veneração pluralista pelo sagrado. Pensando na educação mais ampla do nosso povo, queremos transformar essa experiência e conhecimento do Fórum Inter-religioso da Universidade em um subsídio pedagógico para o ensino religioso, mas também colaborar na criação de um Espaço das Religiões no Recife.

Convidamos a todos para, na próxima sexta, 18 de março, 17h, no auditório do CTCH (1º andar do bloco B) começarmos a discutir então a criaçao de uma fundação, o “Espaço das Religiões”, com base em centro cultural e centro de referência museológico no Recife, para tematizar o fenômeno religioso e as diversas experiências e manifestações espirituais e religiosas. O seu objetivo é de promover o conhecimento das tradições religiosas, o diálogo entre as religiões e a convivência entre os seguidores dos diversos caminhos espirituais. Trata-se de um espaço físico e existencial para esclarecer os diversos níveis de participação religiosa, do popular ao filosófico, enfatizando o conhecimento místico que se desenvolve entre e além das diversas expressões. 

Participe e envolva-se na criação de um espaço que tem o apoio do Fórum Inter-religioso da UNICAP, mas vai para muito além dos muros da Universidade, porque destina-se à escuta, à celebração e à meditação sobre as vivências da fé da nossa gente, ajudando assim a fomentar uma sociedade pluralista e democrática.